Hoje quando falo que um dia fui surfista, a maioria de meus amigos da risada, faz piadinhas, etc, mas, lá pelos idos de oitenta e poucos eu morava em Florianópolis local onde não é necessário se matar de remar pra pegar uma onda e onde crianças de seis sete anos colocam tubo brincando, de 10 amigos que eu tinha 10 eram surfista, logo, eu era surfista também, tinha duas Cristal Graffiti, 5 11’ e 5 10’, uma Tropical Brasil 6.0 vermelha e uma Manga Rosa (marca de prancha de Balneário Camburiu).
Depois de assistir o HANG LOOSE PRO CONTEST na Praia de Joaquina, vencido pelo australiano DAVE MACAULAY, aprender a surfar era uma necessidade, comprei uma prancha Manga Rosa e depois de alguns meses praticando decidi com meu amigo argentino, o Alberto, 13 anos, que naquela tarde chuvosa do mês de março a gente ia deixar de ficar babando as revistas de surf e iríamos virar surfistas de verdade:
- é só a gente pegar uma onda na Joaca hoje...
Fácil né? Entrar na Joaquina de ressaca, pra dois magricela de doze anos é suicídio. Vestimos nossas roupas de borracha e fomos até a praia, quando a perna treme tem pessoas que ficam estáticas e outras que saem correndo, eu e Alberto saímos correndo, só que pro lado oposto ao que o bom senso indicava, se é que se pode ter bom senso com doze anos sonhando em ser Tom Curren, corremos para as rochas na esquerda da Joaquina onde você entra no mar direto no canal. No limite da rocha percebi que havia poucos surfistas na água, tentei comentar isso com Alberto, mas minha voz não saiu direito e ele corria feito um desesperado na minha frente, tive a sensação que Alberto tava hipnotizado pelo medo. Foi assim que pulamos na água, eu remava pelo canal sem saber direito pra onde ir naquele mar cinza, céu cinza, chuva cinza, até o momento em que a Joaquina parou por alguns segundos junto com a nossa respiração, do canal, eu e Alberto estáticos vimos David Husadel (campeão brasileiro de surf no OP Pro) dropar aquele gigante cinza com sua prancha vermelha, inacreditável, gritamos (uhuuu) (yeh....!!!!), ouvindo o estalar da onda quebrando, quando a onda acabou ele entrou no canal e veio em nossa direção remando.
- ai David, que onda meu!
Ele chegou mais perto, olhou pra nossa cara e deixou nosso recado de bom senso:
- vocês são malucos! Querem morrer! se não saírem agora do mar, vou quebrar esse projeto de prancha de vocês, vai logo! Vamo!
A bronca fez a gente voltar à realidade, saímos do mar pelo mesmo canal que entramos. Na areia dando risada comemoramos o fato de estarmos molhados com a água do mar daquele dia, de ter dividido a Joaquina com David Husadel, mesmo que por alguns segundos, e pelo conselho do mestre, Alberto quebrou a prancha dele ali na areia mesmo, eu não tinha forças pra nada, quebrei no caminho de casa, e encomendamos pranchas de verdade, a minha uma Tropical Brasil vermelha em homenagem ao meu mestre David Husadel, afinal agora éramos surfistas de verdade. Quando vim morar em Salvador e quase desmaiei de tanto remar pra pegar uma onda na Praia do Pescador, destruída hoje, pela construção do Bordel ao céu aberto, Aeroclube, me aposentei no surfe.
Depois, pratiquei outros esportes, não vou citá-los aqui por que o povo sempre duvida, mas tudo bem, o que importa é que lá pelos idos de oitenta e poucos eu tava na avenida sete, Salavdor, com alguns amigos curtindo meu primeiro carnaval baiano, de mortalhan na pipoca e de mamãe sacode, por que naquela época não existia abadá, camarote (apertando todo mundo), muito menos circuito Barra/Ondina, e a música era boa, quando alguém falou:
- Lá vem os Acordes Verdes!
Era o trio onde Luis Caldas comandava a banda Acorde Verdes, com Carlinhos Brown na percussão e outras feras da música baiana. O Acordes verdes passou, mas aquela guitarra vermelha de Luis Caldas me afetou da mesma forma que a prancha vermelha de David Husadel, fui pra casa e no outro dia comprei minha primeira guitarra, uma Giannini Vermelha. Algum tempo depois tava no horário de intervalo do Colégio Mendel em Salvador, quando um sujeito meio estranho chegou de meu lado:
- vo vo você que é o xandão
- sou eu sim
- e e e eu sou o Cury
porra... O cara era meio gago e tinha uma mexa branca na cabeça, depois fiquei sabendo que era de nascença.
- e ai Cury beleza?
- beleza, você toca guitarra né?
- é
- eu toco bateria
- massa
- eu to to to fazendo uma banda com uns amigos, você não quer tocar com a gente?
- pode ser, como é?
- vai ter ensaio amanhã, na casa do tecladista, lá na Pituba
Porra... amanha era o começo de feriado de Semana Santa, já tinha marcado uma viagem pra Barra do Itariri.
- e e e ai vai? Hein vai? Vai?
- vô sim, me da teu telefone.
Não viajei, fui pro ensaio, e lá descobri que a banda era de Reggae, Cury amava os Beatles, e eu, nascido em Curitiba amava o Plebe Rude, e agora, o Luis Caldas também, não deu certo, Cury foi demitido primeiro eu fui logo depois.
Esses foram alguns Mestres Iniciadores, esse blog é dedicado a um deles, essa figura inoxidável chamada Ricardo Cury, ser humano demasiado humano, me iniciou no mundo Banda, continua amando os Beatles, a Mafalda, o Teatro, a Música, as Artes, já me deu a maior prova de amizade, me emprestando alguns Dvds raros dos Beatles e dos Mutantes, e esta a alguns passos de realizar o sonho de se tornar ESCRITOR. Aguardo ansioso seu livro autografado.
Aqui vai a ultimo texto postado do blog de Cury, queria que ele escrevesse um texto especial pra mim, mas a preguiça também lhe é peculiar e ele se negou, disse através do MSN:
- Cury diz:
bota esse ultimo que escrevi
- Alexandre diz:
porra Cury queria um texto inédito
- Cury diz:
porra xamico, ta foda, to sem tempo com esse lance do livro, bota esse mesmo que eu cito você nele
- Alexandre diz:
valeu então, deixe estar sacana...
- Cury diz:
heheheheh
- Alexandre diz:
hahaha
“Aqui na Terra tão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock and roll.” – Chico Buarque.
Quando eu era pequeno, eu achava que Chico cantava que “aqui na Terra tão jogando futebol, tem muito samba e muito SHOW de rock and roll”. Mas logo que vi que eu tava errado e que Chico tava certo. Até tão jogando futebol, tem também muito samba e muito choro, mas rock and rool que é bom tá cada vez mais difícil, meu caro amigo Chico. A coisa aqui tá preta.Quem mora na Bahia, além de morar num estado um tanto atrasado em diversos aspectos, sofre com as notícias sobre os artistas que vem ao Brasil, mas que nem passam perto daqui. E os outdoors dizem que é o estado que mais cresce.Além de não ter shows internacionais aqui, ainda temos que torcer, pra que quando tiver, pro tal artista não passar mal ao comer uma iguaria. Nick Cave cancelou seu show na última hora após um abará. Bjork, que veio num carnaval e não ia se apresentar, mas que talvez rolasse algo, passou mal com um vatapá e cancelou qualquer chance de uma apresentação.Stevie Wonder teve aqui em 2006 pra a 2ª Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora e nem “Hi” no microfone ele disse.Meu Deus, Stevie Wonder veio e não soltou uma nota. Com o perdão do trocadilho Stevie, mas isso só se vê na Bahia.
Esses dias recebi um mail de um amigo dizendo que ele poderia morrer em paz se fosse assistir aos shows internacionais que acontecerão fora da Bahia no ano de 2007. Um outro amigo respondeu que ele já viu de tudo... Pixies, Stooges, Flaming Lips, Nine inch nails, Sonic youth (2x) e Teenage fanclub… e que isso já tava bom pra uma vida.Como nunca vou aos shows internacionais que (só) acontecem fora da Bahia, nunca vi muita coisa. Alias, nunca vi nada. Só Placebo, que até hoje as pessoas perguntam se ocorreu mesmo aquilo em Salvador, e Information Society, que tocou com Asa de Águia no Baiano de Tênis em 1991. Prefiro gastar de dois em dois anos com viagens mais duradouras e até pra fora do país. Um dia, quem sabe, pelo acaso, posso estar em alguma cidade onde terá algum show de meu interesse.Tava dando uma repassada no meu cerebelo pra lembrar do que já vi em Salvador e, entre outras, selecionei Wander Wildner com Tom Capone no baixo, Cigarettes com Spencer no baixo, brincando de deus na formação original, Dead Billies (∞ vezes), Engenheiros do Havaii com Gessinger, Licks e Maltz, Titãs com Arnaldo Antunes, Legião Urbana, Cascadura lançando o primeiro disco com três guitarras, Úteros em Fúria também na formação original, Paralamas com Herbert em pé, o que era uma coisa absurda, extraordinária... Vi também a banda carioca Pelvs tocando no Calypso...Em Lisboa ganhei na mega-sena. Comemorei como um louco, pois vi de longe um anuncio do R.E.M. Eles em tamanho natural. Olhei procurando a data do show, pois só ficaria em Lisboa por quatro dias, quando finalmente vi em letras garrafais “07/01/05”. Não ganhei na mega-sena por três dezenas erradas. Eu estava em 14/10/04. Me contentei com uma foto com eles, já que estavam em tamanho natural.Em Santiago no Chile, em 2006, foi com Placebo. Apesar de já ter visto, não perderia a oportunidade de ver de novo. Mas o show era pra dali a duas semanas e eu já estaria em Salvador. Tirei outra foto com o cartaz. Pra mim, um pobre baiano, ver cartaz desses shows é raridade.Na Bahia, o único cartaz que vi foi de um show do Ramones. Que não teve. Era boato.PUTAQUEPARIU.Só na Bahia pra ter um boato de um show do Ramones. E com cartaz. Pena que não fotografei. O único show que consegui ver fora do país foi em Madri. Saí de Salvador pra ver Moreno Veloso em Madri. Mas valeu a pena. Era com banda completa, Kassin, Domenico e mais três, num teatro massa e barato. Bem mais barato que seu pai na Concha Acústica, semanas atrás. E mais ainda que Chico Buarque no TCA, um mês atrás.Apesar de ter visto Chico nas ruas do Rio de Janeiro, queria ver ele num palco. Faziam 13 anos que Chico não se apresentava em Salvador. No Teatro Castro Alves seria perfeito.
– Compre no SAC do Iguatemi – disse Cris.
Cheguei meio-dia e peguei a senha, pra esperar o atendimento, de número 86. Estavam chamando a senha 38.
– Mas ainda tem ingresso?–
Tem sim senhor – respondeu o cara que organizava a fila.
Esperei por exatamente duas horas e meia.
– Mas conseguiu comprar? – perguntou Cris ao telefone.
– Consegui, mas acho que você não vai gostar muito...
– O que foi?
– Só tinha sobrado a fila zê.– FILA ZÊ? – gritou ela.
– Na verdade... zê dois
Quase que Cris desiste e manda eu vender. Mas ela concordou que era Chico e que talvez não tivéssemos outra oportunidade. A sociedade baiana é engraçada. Senhoras de vestido longo preto e cabelos armados só pra ver Chico. É como se arrumar pra viajar de avião. O show foi muito bom, Chico veio com A Banda e a distancia não foi problema. A única coisa ruim do show foi o cheiro de maquiagem que carregava o ar do teatro. Mulheres de Atenas, hein Chicão?No show de Chico tem de tudo. Gente de todas as idades, tipos, tamanhos, formas... Madames, engravatados, ripongas, o governador e a primeira dama, gente com camisa do Los Hermanos... Até minha terapeuta eu encontrei no show de Chico. Nunca a vi em lugar nenhum. Nunca, só no consultório, mas a encontrei na fila da água antes do show começar. Fiquei naquela sem saber se ia ou não falar com ela, mas achei melhor não.
– Minha terapeuta tá ali – disse eu.
Cris queria ver quem era, insistiu, mas não mostrei.
Oxe, minha mulher conhecendo minha terapeuta?
Nem a pau.
As duas sabem tudo de mim.
Imaginei paranoicamente as conversas que poderiam acontecer e achei melhor não mostrar.
– E aquele problema que ele tem de blá, blá, blá... – diria uma.
– Ah, mas pior é aquele outro problema que num sei o quê – diria outra.
Nada de apresentar uma a outra. Cris ficou tentando adivinhar pela aparência, mas me mantive frio e não dei pistas. Foi a primeira vez também que vi Dra. Maria de maquiagem. A dela tava leve, mas era uma maquiagem."Mirem-se no exemplo daquelas mulheres...", né Buarque?
Semanas depois teve Caê na Concha Acústica. Eu já tinha visto Caetano, mas fiquei pirado, pois era na tour de Circuladô, em 1992. Fiquei pirado por causa dos outdoors. Foi quase igual a história com o Ramones. Era Caê e Daniela Mercury (início de carreira) e tava no outdoor “Caetano Veloso e Daniela Mercury”. Esse outdoor ficou assim por três semanas e faltando dois dias pro show colocaram embaixo da palavra Caetano Veloso, em letras minúsculas, “Voz e Violão”. Eu tinha o CD Circuladô ao Vivo e queria ver a banda toda, não ele voz e violão. Mas já tinha comprado e fui. Não vi Daniela. Saí antes. Mas dessa vez na Concha era com banda. E de rock.Na Concha não tem lugar marcado e ficamos num lugar que, a priori, parecia ruim, pois era em cima da mesa de som. Porém, por parecer ruim, não tinha ninguém, um vazio no meio da platéia e por isso se transformou no melhor lugar do show.O show durou cerca de 1:40 e durante a primeira hora o que mais se ouvia era a palavra “senta”. Algumas pessoas queriam dançar e outras queriam ver o show sentados. Como estava no meio, pude presenciar várias confusões ao redor. Os “sentados” gritavam “senta, senta, senta” e por causa disso, na minha frente, quase que um cara senta a mão no outro. “Vão dizer que a violência é culpa do rock”, pensei.Uma hora rolou uns aplausos, logo no início de uma música, e Caê achou que era pra ele e sorriu em direção ao grupo que aplaudia. Mas eles estavam aplaudindo o cara da frente que finalmente sentou.Do meu lado, um casal que era visivelmente “público TCA”. Faixa dos 45, ela de preto, ele de camisa de botão, ela maquiada, ele de barba bem feita... Ela em pé, ele sentado... Imagino que foram pro show de Caetano no modo “é Caetano? Então vamos”.Ela batia palmas cada vez mais desmotivadas enquanto seu marido tapava os dois ouvidos por causa da barulheira que o guitarrista de Caê, Pedro Sá, fazia no fim de uma música com sua guitarra. Uma microfonia dissonante à Sonic Youth.
– Caetano tá tão estranho – comentou ela no fim da musica.
Aquilo que falei no início do texto sobre a Bahia não receber astros internacionais vale pra qualquer tipo de “coisa”, menos pro reggae. Uma vez teve um festival de reggae que era tributo ao mundialmente famoso reggaeman Peter Tosh. Nesse evento teria o show do filho dele, Andrew Tosh. Xandão, um amigo meu, tava pirado com as pessoas dizendo
“ah, vai ter Andrew Tosh e eu vou porque Andrew Tosh é massa, é filho de Peter Tosh, é o máximo e blá, blá, blá...”
– Porra de Andrew Tosh – dizia Xandão
– ninguém nunca ouviu falar nele, ninguém sabe a história dele e agora vai a baianada babar só porque é filho do cara? Se é assim, todo mundo devia ir babar no show de Preta Gil – finalizava ele.
Um dia depois desse festival, quem quisesse maconha era só ir pra Avenida Paralela e procurar pelo acostamento. Na hora do show teve blitz policial. Todo mundo dispensou pela janela do carro.Esse negócio de filho é foda. Só de Bob Marley já veio uns 10 pra Salvador. E Bob Pai nunca veio tocar quando vivo. Veio jogar bola, inclusive com Chico, onde bateu a clássica foto de time de futebol com Toquinho e Paulo Cezar Caju, campeão mundial em 70.Uma amiga minha que tá em Madri me disse que viu o show de Sean Lennon por lá e que foi emocionante ver o filho de Lennon, que ele parece muito com o pai e tal...Sean realmente seria interessante.– Vi um Lennon – disse ela tirando vantagem de mim.– Mas eu vi Chico – respondi triunfalmente, por saber que ela é fanática pelo carioca.Pro show de Chico eu fui com um amigo que é advogado, Gustavo. Na entrada, ele encontrou com um cliente dele que era um dos organizadores do evento.– No domingo, depois do último show, vai rolar um baba com o Chico, quer ir? – perguntou o tal cliente.Ele disse que sim e me chamou. Eu não poderia ir. Tinha uma viagem a trabalho marcada. Como o trabalho era no Vale do Capão, não foi tão dolorido. Gustavo foi e no caminho passou pela porta de um amigo em comum da gente, Faustão, que estava naquele momento entrando no edifício.
– Tô indo pro baba com Chico.– Chico?
– Buarque.
Foram juntos. Os dois torcem pro Bahia, mas jogaram com o uniforme do Vitória. Chico jogou com o uniforme do Bahia. O Bahia e o Vitória deram uniformes completos. Bateram a clássica foto de time de futebol. Chico bateu com os dois times. Estavam presentes os ex-jogadores Bobô, Sandro, João Marcelo (todos campeões brasileiros pelo Bahia em 88), além de jornalistas, convidados e a primeira dama do estado, que estava torcendo por Chico com uma empolgação balzaquiana.Mulheres de Atenas, né Carioca?O jogo foi 4 x 4. Quase igual ao 6 x 5 real do último Ba x Vi. Faustão fez um gol, marcou Chico, que segundo eles me disseram, parecia ser admirador da elegância sutil de Bobô e ainda trocou de camisa com ele no fim do jogo.Faustão não viu o show de Chico, mas diz que se contentou com o fato de ter jogado futebol com o próprio, que tava de bom tamanho...
– Foi show de bola – disse ele.