Thursday, March 6, 2008

A Anarquia não é Utopia! ? ! ?

Muito do que, colégios, telejornais, avós e pais, nos passaram sobre o conceito anárquico, principalmente nos idos dos anos 80, afastou grande parte das pessoas do real entendimento desta palavra... Anarquia passou a significar bagunça, rebeldia, marca de Skate, de roupa para adolescente rebelde. Enquanto algumas sufocadas vozes tentavam explicar esta palavra tão temida por governantes e nações inteiras, o mundo expurgava, através de uma mídia tendenciosa, a terrível possibilidade de algum país desavisado implantar a filosofia anarquista como doutrina política, apesar, da mesma não designar tal significado. Vamos então dar em rápida definição para a tal da Anarquia, mas desta vez vocês não vão nem ouvir o jornal nacional, nem ler a revista Veja, com a palavra alguns anarquistas brasileiros: José Oiticica, Maria Lacerda de Moura, Domingos Passos, Florentino de Carvalho, Edgard Leuenroth.
“Anarquismo é uma palavra que deriva da raiz grega αναρχία — an (não, sem) earchê (governador) — e que designa um termo amplo que abrange desde teorias políticas a movimentos sociais que advogam a abolição do capitalismo e do Estado enquanto autoridade imposta e detentora do monopólio do uso da força. Exemplificando, Anarquismo é a teoria libertária baseada na ausência do Estado. De um modo geral, anarquistas são contra qualquer tipo de ordem hierárquica que não seja livremente aceita , defendendo tipos de organizações horizontais e libertárias.”
“Para os anarquistas, Anarquia significa ausência de coerção, e não ausência de ordem. Uma das visões do senso comum sobre o tema é na verdade o que se denomina por "anomia", ou seja, ausência de leis."
Quando o escritor russo Piotr Kropotkin, defendeu com unhas e dentes os conceitos do anarquismo e expôs importantes pontos do pensamento anárquico como a liberdade e a solidariedade, o mundo capitalista escandalizou-se, Piotr foi preso diversas vezes por participar de protestos estudantis e outras atividades revolucionárias, a Liberdade para Piotr, e para todo anarquista, é a base inconteste de qualquer pensamento, formulação ou ação, representando o elo sublime que conjuga de forma plena todos os anarquistas. Assim, a Liberdade deixa apenas o plano abstracional (do pensamento) para ganhar uma funcionalidade prática, sendo o símbolo e a dinâmica do desenvolvimento humano real. Em outras palavras, o princípio básico para qualquer pensamento, ação ou sociedade ser definida como anarquista é que esteja imersa, tanto abstracionalmente (ideologicamente), quanto pragmaticamente (no âmbito das ações), no conceito de Liberdade. Em sua famosa obra "O Apoio Mútuo", Piotr, expunha as vantagens que o princípio da solidariedade garante a cada indivíduo que as compõem.
Pois bem, a guerra fria já acabou, a Mcdonald é sucesso absoluto na Rússia, o francês Pierre-Joseph Proudhon, primeiro homem a se intitular comunista já morreu há quase 200 anos, Piotr Kropotkin faleceu em 1921 e o capitalismo venceu, pois nos ensinou direitinho que Anarquia é coisa de baderneiro e, sepultaram definitivamente o inimigo, quando criaram uma ligação mortal entre as palavras Anarquia e Utopia. É impressionante como tudo que traz novos conceitos ou novas perspectivas na sociedade atual, tem logo lá, um muito bem educado declamando com ares de intelectual “chinfrim”: “Ah meu nobre amigo, isso são Utopias.” ·
Mas percebam que a tal da Internet, aquela do Orkut e outras baboseiras, possui também seu lado anarquista, consegue mostrar facilmente, para aqueles que visualizam a rede com bons olhos, que a falta de leis, e do estado, não geram bagunça como papai falou, nem tão pouco destrói qualquer possibilidade de se construir uma realidade favorável ao bem estar geral. O Wickipédia é uma das grandes demonstrações dessas coisas que fatalmente teriam sido intituladas como Utópicas, mas falaremos dessa enciclopédia anarquista, que a cada dia bate recordes de acessos, em um outro momento.
A idéia principal deste texto também não é criar um grupo anarquista aqui na Bahia, rsrsrs se bem que seria até engraçado... na verdade este texto não passa de um convite para nos tornarmos um pouco mais anarquistas em nossos gostos, opiniões e vontades, de tentarmos “variar”, acho esta palavra excepcional, admiro as pessoas que decidem periodicamente dar uma variada em suas vidas, e a Internet está ai como uma ótima aliada, escute, leia, assista o que realmente lhe agradar, o que combinar verdadeiramente com a sua vontade, as possibilidades estão muito mais próximas do que você imagina.
Então é isso, esta aberto o marcador "anarquia", vou deixar minha dica anarquista aqui para vocês e espero a dica de todos... mandem novidades em quaisquer temas.
Minha dica é sobre música, com vocês, o genial multi-instrumentista americano:
Mr Andrew Bird
quem gostou e quiser conhecer mais o trabalho do rapaz ai... tai o link para download do disco Andrew Bird - The Mysterious Production of Eggs... bom som!

Monday, February 18, 2008

"pode acreditar... esta acontecendo... o que você sonhou..." ops...

Nas ultimas semanas recebi algumas mensagens fazendo referências, de todos os tipos e gostos, há um antigo texto publicado aqui mesmo no blog, intitulado: quê quê isso!, neste texto, uma das questões abordadas, referia-se sobre a problemática dos mega-super-hiper-outdoors da cidade de Salvador, por uma ótica um pouco limitada em comparação ao que muitas das mensagens anunciavam sobre os majestosos “propagandeiros”, até por que tinha também outras finalidade. Pude saber, através da mensagem encaminhada pelo caro leitor Rodrigo, que Curitiba aderiu á um importante projeto, aprovado já a algum tempo pela Câmara Municipal da cidade de São Paulo chamado: “Cidade Limpa”, promovedor de discussões acirradas sobre o assunto, já que fora considerado, pelos defensores da midia e donos de agencias publicitárias, um projeto instituido de forma “radical”. Despoluir a paisagem urbana, devolver aos seus moradores o direito a um espaço público não só agradável, mas com mais qualidade de vida, é um dos focos do projeto que proíbe, e faz outras restrições á mídia externa na cidade, como por exemplo: fica proibidos os anúncios publicitários em todos os imóveis existentes na cidade (públicos ou privados/ edificados ou não) e nos veículos automotores, motocicletas, bicicletas, traillers e carretas, integram este grupo de anúncios também os outdoors, os back-lights, front-lights, totens, elementos infláveis e qualquer outro tipo de dispositivo que contenham mensagem de propaganda.

Ufa! Deu vontade de passear pelas ruas. Pra minha alegria, outras capitais brasileiras de peso, como Curitiba e Florianópolis, iniciaram suas regulamentações para a aprovação de projetos similares ao paulista, Salvador, como uma das cidades mais belas do Brasil, com imensurável valor arquitetônico e inenarráveis paisagens naturais poderia, assim como suas colegas, tomar tal iniciativa.
Deixe sua opinião sobre o assunto. Outras informações em:

Tuesday, August 28, 2007

Carro

O tema de hoje é carro, pelo jeito vai ser desses de capítulos.

È realmente impressionante o poder que esse objeto motorizado chamado de: carro, automóvel, motor, maquina, carroça (apelido pejorativo), etc, exerce sobre os seres humanos. Mas, quem inventou o carro? O Leonardo da Vinci? O Cornelius Van Drebbel? O Hitler? O Eurico Miranda? Saibam vocês que, um europeu, mais precisamente um alemão, pra variar, o nome do individuo era Karl Benz, isso mesmo era, por que Karl inventou o primeiro carro com motor a combustão em 1886, a promissora invenção era um modelo com três rodas de madeira, muito difícil de produzir e caro. Pra comprovar a máxima de que o presente se entende com o passado, foi que um “americano”, da América do norte, entre um tiro e outro na direção dos indígenas cheroquis, navajos, choctaws e siouxs, decidiu em 1908, aproveitar a idéia, ou melhor, roubar a idéia do Karl e, sendo assim as coisas no mundo, começou a produzir veículos em série, mais baratos na montagem, rapidamente tornaram-se, essas maquinetas, populares pelo mundo afora.
Agora, mais importante do que quem inventou o carro é quem inventou, estabeleceu, instituiu e convencionou, o mecanismo para-psicológico que os carros exercem na mente de seus enlouquecidos donos, sim, por que a partir do momento que um individuo conquista a possibilidade de obter um carro, ele passa, automaticamente, a desenvolver alguns distúrbios, chegando, com boas proximidades, aos limites da loucura, conheço pouquíssimas pessoas superiores a esse mal. O curioso em torno dessa relação, dono/carro, foi o seguinte: em cada região do nosso Brasil, desenvolveu-se um tipo peculiar de comportamento.

No verão, nas belíssimas praias de Balneário Camboriú, em Santa Catarina, facilmente você avista um Lamborguini, ou um Audi TT, bronzeando-se debaixo do sol de quarenta graus, sem cuidados com a pintura ou outras frescuras, é o veraneio dos novos ricos paulista, gaúchos e argentinos. Se o dono da Cheroke bate os pés na toalha, ou bronqueia com os filhinhos, para que tirem a areia da praia antes de entrar em seu automóvel, fica mal visto pela sociedade catarinense, a não ser que seja Curitibano de férias, por que Curitibano é fresco mesmo com essas coisas de praia e areia, Santa Catarina é o único lugar onde as pessoas são mais importantes que seus carros, deve ser por isso que não tem um dono de Mercedes se quer, que não saia da praia acompanhado de uma loira “Catarina” de parar o trânsito.

Já em Recife na também belíssima Praia de Boa Viajem, já vi um pai que, por muito pouco, não afundou a moleira do filho, motivo: a pobre criaturinha deixou sua melecada chupeta caiu no “plástico” do estofado do Vectra 2.0, é vocês leram corretamente, “o plástico”, por que Recife é a capital do banco com plástico da concessionária, tem gente que tem carro ano 2002 e ainda não retirou a película plástica do assento, às vezes é até melhor, por que quando tiram o plástico, acabam colocando no lugar, ou aquelas fatídicas madeirinhas ortopédicas, ou um belo e reluzente couro de bode. Um taxista pernambucano, com seu Golf 2005, impecavelmente plastificado, me disse que o plástico é pra deixar o carro com cheirinho de novo, se Pernambuco fosse na França eu até acreditava, o pior é quando você sua, o que não é muito difícil em Recife, fica grudado, aderido, se permanecer na mesma posição por um longo tempo já era, corre o risco de virar aqueles bichinhos de vidro.

Paulista ama carro velho, pode-se encontrar uma Belina 79, “zerada”, “da hora”, “mó belezura”, estacionada em plena Augusta sem o menor constrangimento, servindo de banquinho pras “meninas”, ajuda muito o fato de em são Paulo não existir a corrosiva maresia pra acabar com a chaparia. São Paulo, dentre suas mil e umas facetas, conseguiu concentrar concessionárias da Ferrari, Masserati, Posche, Land Rover, Mercedes, BMW, Jaguar entre outras lojas particulares, onde pode-se adquirir um Rolls Royce, um Lamborghini, ou sendo o caso do cliente ser muito chato, um Lincoln ou um Cadillac, tudo apenas em um mesmo bairro, no Jardins, mas também é a cidade onde o carro ta começando a desvalorizar rapidamente, motivos, é fácil ser roubado, o trânsito é horrível, e a onda dos milionários já há um bom tempo é andar de helicóptero, até outdoor nos terraços dos prédios existe para as madames saberem que a Daslu fica a 500 metros.

No Rio de Janeiro não só o carro, mas todo o resto, é sinal de status, diferenciar é o verbo predileto do carioca, que ta “mó decepcionado”, por que com a onda de violência desencadeada pela própria exagerada ostentação que ele tanto adora, fez-se necessário à blindagem dos carros, só que não inventaram ainda uma blindagem visível, rosa choque e com botox, que apareça bastante e o dono possa se exibir pelas maravilhosas avenidas de Copacabana.

Como tudo que é moda no Rio virá mania em Salvador, na capital baiana a principal função do carro também é promover status social, de um modo diferente, mas com a mesma intenção, o individuo mora num barraco quase caindo do morro, mas tem um Vectra 2007 com direção, vidro elétrico fume, buzina que toca o hino do “Baea”, jante e DVD, estacionado em cima do paralelepípedo, é impressionante o número de carros do ano que se pode encontrar nos estacionamentos dos conjuntos habitacionais de Salvador, seu orgulhoso dono deixa de comer carne na semana, mas tem um Clio da Renault na porta, “é carro importado véi”, outra paixão do baiano são aquelas capas pra quem não tem garagem coberta, enquanto o esmerado dono coloca toda noite, com a maior preocupação a “camisinha” em seu carrão, o salitre da orla de Salvador sorri com a inutilidade daquele fatídico procedimento, eu não sei o que aquilo protege, francamente, além de deixar o carro com um aspecto ridículo, com certeza, se o Fusca realmente falasse, exigiria que seu dono viesse colocar aquela capa enfadonha vestido apenas de ceroula, ou senão que mostrasse pra todos os vizinhos do bairro, aquela foto de quando ele tinha cinco anos, com o cabelo penteado pela mamãe, no colo do papai, e com o Opalão bege 76 de fundo.

Friday, August 24, 2007

"Floresta"

Belineide Souza Santana, soteropolitana, moradora do Cabula Vi, ou V, ou 5, conhecida desde sua infância como Bilu, caçula de sete irmãos; seu Woshington, pai de Bilu, toda manhã de sábado, dia de sua folga na empresa em que trabalhava como motorista de ônibus, lá pelas dez da manhã ia ao quarto de Bilu:
- Rumbora Bilu, acorda pra vida menina, simbora!
- ô painho... deixa eu dormir mais um pooooooooouco.
- Ectha que essa menina é fogosa... essa ai puxou a mãe...
Seu Woshinton fechava a porta do quarto e ia pra cozinha, lá encontrava Berenice, mãe de Bilu, preparando o cozido do sábado.
- Mulher, essa Bilu é você cuspida hein... oh menina fogosa...
- iiiii painho se puxou mesmo, vai gosta do vuco-vuvo... tu ta ferrado, vai ter é genro nessa casa.
- mulé... tu tome jeito... chegue aqui em painho, renha... renha... de um dengo em painho...
Esse negócio de dizer que Bilu era cópia da mãe, acabou “vingando”, Bilu cresceu e “formo” foi uma mulata das graúdas, com todos os apetrechos admiráveis da mãe quando jovem, e pra cópia ser das originais mesmo, registrada em cartório, causando a inquietação de seu Woshington, a bixinha gostava e muito do “assunto”, primeiro foram os primos, depois os coleginhas da escola, do bairro e por ai a menina ia do jeito que tinha de ser.
Cleidson Vinicius Silva, mais conhecido como Cleidinho, apelido carinhoso dado pela avó paterna no dia do nascimento, soteropolitano, também morador do Cabula V, o quarto dos nove irmãos; adorava ver da janela do seu quarto o pessoal da Limpurb pegar o lixo todo fim de tarde, ficava admirado com a facilidade que aqueles homens pegavam quatro, cinco, ás vezes até seis sacos de lixo de uma só vez, os mesmos sacos que todos os dias ele ajudava, com muito empenho, a mãe a carregar até a lixeira do lado de fora da casa, o auge do espetáculo acontecia caso os homens jogassem os sacos na boca escura do caminhão e o motorista ativasse a rotação da cápsula do tambor na frente da casa de Cleidinho, ai a alegria era completa, nem piscava os olhos vendo os sacos de lixo serem esmagados, triturados, sonhava em um dia ser o homem do bairro que conseguiria carregar a maior quantidade de sacos de lixo de uma só vez.
- mainha, quando eu crescer eu quero ser pegador de lixo.
- oxi Cleidinho, ta doido é mininu, que pegador de lixo o que, se vai ser é jogador de futebol ou cantor de pagode... viu! nem invente! Só me faltava essa, pegador de lixo, ai meu senhor do Bonfim! - Resmungava dona Célia, mãe de Cleidinho.
Apesar de não entender o por que da chateação de sua mãe com a escolha de tão importante função, como a de pegador de lixo, responsável por manter a cidade sempre limpa, Cleidinho bem que tentou ser jogador de futebol, todo sábado no campinho do bairro, comparecia com sua camiseta do “Baea minha porra” para o “baba”, mas na hora da escolha dos times ele era sempre um dos últimos a ser escolhido, isso quando não ficava na de fora, o que significava até para os mais desentendidos na arte do futebol, um sinal de que Cleidinho não levava jeito pra bola. Depois do baba tinha o pagode lá na praça, era sua segunda chance de orgulhar a mãe, conhecido pela vaidade e pelo cuidado com que penteava seu cabelo com a “pata-pata”, levava uma hora, penteando, passando gel, se olhando no espelho, depois vestia a camisa e o short da Fast Feet, combinando é lógico, ele tinha de todas as cores, verde limão, amarelo “cheguei”, azul “brilhante”, vermelho “sangue”; já arrumado, tomava outro banho agora com a lavanda, adorava sentir-se limpo e perfumado, devia ser algum trauma causado pelo amor juvenil com os sacos de lixo. No pagode, cantar e tocar também não eram o forte de Cleidinho, enquanto os amigos se exibiam nos vocais e nos instrumentos, Cleidinho ficava de olho na mulherada, bom de samba no pé e melhor ainda na lábia, naquela época já era conhecido como “Papai Zóião”, era Cleidinho botar o olho na “figura” que o bote era certo, foi exatamente num desses pagodes que ele avistou a fogosa Bilu se “quebrando toda” perto da barraquinha do capeta, Cleidinho não podia perder a oportunidade de xavecar aquela formosura, e no ritmo do Pagodão, aproximou-se de “Bilu”, sambando com o dedo indicador na boca:
- Eita mainha! assim se me mata! quebre aqui pra seu painho venha! Venha de bandinha mainha!
Bilu deu seu sorriso maroto pra Cleidinho e ao som de “Vai descendo na boquinha da garrafa”, “Vem mamãe... vem mamãe...”, iniciaram uma dança de esfregação, agachamentos, pulinhos, dedinhos, boquinhas, gritinhos, rebolados, acabando na dança do acasalamento, que aconteceu horas depois atrás do muro do colégio Estadual Presidente Costa e Silva. Desse encontro nasceu Cleidonilson Souza Silva, primeiro filho do casal Cleidinho e Bilu; com a chegada do rebento houve o casório e o “puxamento” da laje no segundo andar da casa dos pais de Bilu. Hoje Bilu é técnica em enfermagem e Cleidinho formou-se em Administração de Empresas, a uns quatro anos passou no concurso público da Coelba, pra desespero de dona Célia que almejava uma vida “decente” pro filho, sonhava em aparecer no arquivo confidencial do Faustão e deixar as vizinhas morrendo de inveja. Filhos, trabalho, casa, responsabilidades, muita coisa mudou na vida de Bilu e Cleidinho, só em um assunto eles continuam os mesmos da adolescência, Bilu continuava fogosa e Cleidinho continuava “Papai Zóião”, e melhor ainda, depois daquela noite no pagodão, Bilu só conseguia chegar ao clímax caso estivesse “rolando” um pagode dos bons. Cleidinho não perdeu tempo, comprou um microsistem de ultima geração em doze parcelas de R$14, 89, o bendito do aparelho não saia do quarto do casal nem nos dias de festa, era proibido qualquer ser humano chegar próximo daquela maquina do amor, Cleidonilson quase teve a moleira afundada num dia que escapou da Avó e quase danifica o “Aparelho” com seu chocalho, não fosse a voadora certeira de Cleidinho arremessando o filho até a cozinha, algo muito sério poderia ter ocorrido naquela família. Dia sim dia não, depois do trabalho, Cleidinho chegava em casa mostrando um CD novo pra Bilu.
- eita mainha ó praqui. Lançamento! É o “RIT” do momento, a dança do Tchu Tchu”“.
- o painho é hoje que eu me acabo.
E assim, a rotina se repetia de lançamento em lançamento, de dança nova em dança nova, de “rit” em “rit”, etc em etc, mas o negócio pegou fogo mesmo quando Cleidinho trouxe o lançamento do ultimo carnaval com a música: “PIRIRIPOPOM PIRIRIPOPOM”, Bilu foi à loucura. “PIRIRIPOPOM PIRIRIPOPOM” se tornou a marca do casal, Bilu passou a chamar Cleidinho de meu PIRIRI e Cleidinho chamava Bilu de meu POPOM; quando o almoço de Bilu tava gostoso, Cleidinho dizia que a comida estava PIRIRIPOPOM, se Cleidinho consertava a antena da TV, “eita que a imagem ficou PIRIRIPOPOM”, com tanto PIRIRIPOPOM pra cá e PIRIRIPOPOM pra lá, nasceram, Cleirovan, Cleidir, Berenidis, Cleber Ricardo e a caçula Berenice Alessandra.
S
empre que todos estão disponíveis ou quando o stresse chega no limite, existe um lugar, que os amigos mais esotéricos apelidaram de “Floresta”, para os “normais” é o Sitio de Lore, lugar onde recuperamos a racionalidade humana antes de retornar para a maluca civilização urbana. Nossa “Floresta” encontra-se na região de Itacimirim, 60 Km de Salvador. Esoterismos a parte, A “Floresta” é um Sitio, pertence ao Avô do “Nico”, Nico é o apelido que nossa amiga Lore recebeu num dia em que estávamos todos reunidos naquele que até este momento ainda chamava-se Sítio e alguém, não me lembro quem, instituiu que a partir daquele dia o sitio passaria a se chamar de “Floresta” e automaticamente seus freqüentadores teriam que ter cada qual uma representação animal; é claro que nesse momento grande parte das pessoas, estava com seu estado psicofisiologico um tanto alterado, o resultado foi que Lorena passou a ser o Nico, eu um Lagartixo, teve Garça, Bicho Preguiça,, Cachorro, Poodle, e outros uns tanto ofensivos como Rêmora, Anta, Sarigue, Hiena, tinha bicho de todas espécies possíveis, como sempre a maioria dos animais/apelidos foram escolhidos por Waltinho e sua memória ímpar, única pessoa que conheço capaz de cantar a musica do Jaspion inteira e num japonês fluente. Prezando o bom convívio de todos e nossa amizade, visto que alguns apelidos causaram muitas risadas e discussões e até um inicio de confusão, por sorte, somente o apelido de Lorena pegou, Lore passou a ser chamada, carinhosamente de “Nico”, ou Mico na língua de Pojuquinha. A “Floresta” é um lugar mágico, apesar da minha aversão á duendes, á fadas, e á irritante mania de “Vamos abraçar as arvores” de alguns freqüentadores da Floresta, tenho que admitir que o local transcende. Quando adentramos a porteira, dificilmente vamos pra vila ou saímos para qualquer outro destino, os dias são todos ali, o sitio completa, no cajueiro, com as galinhas, os sapos, a fogueira, a cachaça, com Tico - o cachorro vira-lata do local -. Numa dessas viagens descobri um segredo no Sitio, foi o grande motivador para eu considerar cada vez mais aquele local e não dar muita importância a minha total falta de desenvoltura com as coisas do campo, da roça, da natureza, a “Floresta” passou a ter uma importância sublime, pelo menos para mim, demorei um pouco pra revelar meu segredo aos outros “animais”, contei primeiro pro Nico, a qual insisti dizer que é loucura minha, que não há possibilidades disso ser verdade; bom, durante uma passagem pelo sanitário da suíte, descobri vários documentos sobre a ditadura guardados no armário, revistas, documentos, linkando á determinados sinais evidentes, como a existência de quadros de Fidel e de Cuba na sala de televisão, a cor vermelha do muro e do telhado do sitio, e á sensações inacreditáveis ocorridas durante conversas em frente a fogueira, conclui, que nossa bendita “Floresta” sem sombras de dúvida serviu como local de refugio para os militantes de 64, quem sabe Prestes, não aquele Prestes lamentável encenado no filme “Olga”, mas sim o verdadeiro Prestes, tenha se escondido ali naquele local que admiramos tanto e fumado um charuto junto com os companheiros em frente a mesma fogueira; acredito piamente nisso e acho que no fundo o Nico também; coisas de uma época vibrante, que “A Florestas” sempre exala nos seus cantinhos.
Nas raras vezes que saímos, ou é para comprar mantimentos ou para dar uma relaxada a mais no píer que fica próximo da reserva de Sapiranga, em Pojuca. Nesse dia, que agora vou relatar, tínhamos acabado de comer uma moqueca preparada por Graco pelo conhecido sistema “demora que a fome aumenta e a comida fica deliciosa”, então, de barriga cheia, Eu, Matéria, Patrícia, Waltinho, Joana, Julia, Lore, Edu, Graco e Luana, resolvemos ir ao píer tirar uma “pestana”.
O dia estava lindo, o píer como sempre vazio, e entre um papo furado e outro o cochilo vinha fácil, o rio seguia seu caminho rotineiro, a brisa embalava um papo furado, uma coceirinha boa sempre era bem vinda, mas, não demorou muito e ouvimos alguns carros se aproximando, pois bem, lembram de Bilu e Cleidinho? Família em peso decidiu passar a tarde no píer também. Além de Bilu, Cleidinho, seus filhos Cleirovan, Cleidir, Berenidis, Cleber Ricardo e a caçula Berenice Alessandra, também estavam, Nedson e Gisley, primos de Cleidinho, com seus filhinhos Alan Delon e Gineide; Patric e Léa amigos do casal com seus filhos Marlon, Mariene, Miltinho e Marcinha também presentíssimos, sem esquecer Ebola e Tyrone dois poodles do casal Léa e Patric.
- Alan Delon! Miltinho! Cuidado com o rio! segurem Cleber Ricardo que ele não sabe nadar!
- Cleirovam vem amarrar a sunga mininu!
A primeira a se revoltar foi Patrícia:
- A meu deus não acredito, vamos embora...
- Calma Paty, vamos esperar um pouco...
disse Matéria enquanto Alan Delon de “bombinha” pulou no rio molhando Patrícia que tomava sol no píer.
- “Eu lhe afogo seu péstinha”
Nesse momento quem tava cochilando acordou. Depois de uns trinta minutos decidindo se permanecíamos ou voltávamos para o sítio, a zoada foi diminuindo, Alan Delon foi tomar banho de rio com Miltinho, Cleber Ricardo e Berenidis longe de Paty, tudo caminhava para a normalidade enquanto Patric e Nedson preparavam a churrasqueira, foi aí que Cleidinho decidiu pular da tirolesa, é, tem uma tirolesa no rio de Pojuca, sempre tinha reparado, mas nunca senti vontade de pular, até por que ficar no Píer deitado vendo a vida passar é mais emocionante do que aquela tirolesa que atravessa o rio até a outra margem. Lá vai Cleidinho fazer esporte radical, a gritaria foi geral, os meninos também queriam pular, Bilu disse que era muito perigoso, que ele podia cair lá de cima, aquele mundo de gente começou a subir a torre de onde se faz o primeiro salto.
- Eta porra a torre ta balançando! - Comentou Waltinho.
O pior é que tava mesmo, lá em cima o instrutor com uma cara meio irritada preparava Cleidinho para o salto e explicava que quando ele chegasse do outro lado do rio, um outro instrutor prepararia o segundo salto para a volta, a criançada tentava subir na torre enquanto Ebola e Tyrone latiam sem parar. Julia, Joana, Lorena e Luana começaram a fazer coro com Paty, ai já viu, mulher reunida o veneno é forte, quase derrubaram Cleidinho lá de cima só com o olhar. A gritaria continuava, começou um coro de:
- pula! pula! pula!,
Bilu conseguiu chegar até o topo da torre segurando Berenice Alessandra no colo, deu um beijinho no marido fez sinal da cruz, e nem viu Cleidinho ser arremessado pelo instrutor, Berenice Alessandra começou a chorar, a chupeta caiu e encontrou lá embaixo a bocarra de Ébola e Tyrone que destruíram o material plastificado. O salto de Cleidinho foi espetacular, nunca se viu tanta euforia numa pessoa só, ele atravessou o rio gritando, fez alguns movimentos desengonçados, tentando dar uma pirueta, a sunga escapou um pouco deixando a mostra, para quem quisesse ver, o cofrinho de Cleidinho, cena lamentável, finalmente Cleidinho aterrissou na outra margem com a ajuda de outro instrutor. Do lado de cá foi uma festa, enquanto o pessoal batia palma e as crianças berravam:
- Tio Cleidinho! Tio Cleidinho!
até a gente bateu palma, crente que a paz reinaria novamente.
- Porra Cleidinho boto pra fuder... - comentou Matéria
Cleidinho tirou o equipamento da tirolesa e gritou lá da outra margem:
- Pula Bilu, agora é a sua vez!
Ouve um coro de: “Puta que pariu, não acredito”.
Paty e Waltinho se jogaram no rio pra refrescar a mente, Chapéu e Julia começaram a rir e a família toda começou novamente o coro:
- Pula! Pula! Pula!
O instrutor com a mesma cara de quem não agüentava mais, disse a Bilu que Cleidinho tinha pago o salto dela também e que era a vez dela pular, Bilu gritava dizendo que não ia, que era muito alto, que não tinha coragem, mas todos insistiam, principalmente Cleidinho que se “esgoelava” do outro lado do rio:
- Pula meu amor! É muito bom! Eu to te esperando aqui!
E jogava água pra cima, dava cambalhota na areia, sempre gritando o irritante “pula!”.
Mais gritos, latidos, a criançada subindo novamente a torre, e nada de Bilu saltar:
- Ai Cleidinho eu to com medo!
- Pula meu amor... Pula! Pula! Pula!
Paty, irritada, soltou um “Pula logo porra”, o instrutor obedecendo a ordem de Paty colocou o equipamento em Bilu, mas Bilu tava empacada, gritava e batia com os pés, não saia do lugar, olhei pra meu lado e vi Berenice Alessandra sentada cheia de catarro no nariz tentando desviar das lambidas de Ébola, Cleidinho do outro lado do rio continuava o coro Pula! Pula! Pula!, tentava convencer Bilu a saltar, não tinha jeito, Bilu não saia do lugar.
Eu não agüentava mais ouvir tanto “Pula!” Ô palavrinha irritante, vinha “Pula” de todos os lados, o que não se fazia a mínima idéia era que outra palavra bem pior ainda estava por vir, Cleidinho tinha uma carta debaixo da manga que faria Bilu pular até da cachoeira da Fumaça. É chegada a hora.
Cleidinho abriu os braços.
Puxou o ar e soltou um grito mágico:
- PIRIRIPOMPOM PIRIRIPOMPOM
Silêncio geral. Todos estáticos olhavam pra Bilu, Ébola e Tyrone pararam de latir, até o rio parou. Os olhos de Bilu brilhavam.
Cleidinho de novo com a voz cheia de delay gritou:
- PIRIRIPOMPOM PIRIRIPONPOMMMMMMMMMM POMMMM POMMMM POMM
Enquanto os casais e as crianças dançavam freneticamente o ritmo do PIRIRIPOMPOM, Bilu olhou pro marido na outra margem, abriu os braços, tomou distância e em câmera lenta saltou, gritando:
- PIRIRIPOMPOM PIRIRIPOMPOMMMMMMMMMMMMMMMMMM

Saturday, May 5, 2007

Triste Bahia...

Como cidadão brasileiro, morador do Estado da Bahia e da cidade do Salvador queria deixar aqui uma sugestão, em forma de Artigo, para ser inserida na Constituição nacional. O artigo é: “é proibido o uso de cara de pau”, ou, com o mesmo valor, porém, com outra estrutura gramatical, o artigo: “tenham vergonha na cara”.

Há anos morando em Salvador sempre escutei em conversas na faculdade, no bar, na padaria, no “busu”, no táxi, na praia, no estúdio, etc, etc e etc, aquele velho discurso sobre os famosos “cabides de emprego” nos cargos públicos baianos. Foram anos de comentários sobre os “QI”, os “Peixe grande”, os “pistólinha”, os “pistola” e os “pistolões”, cada grupo sempre tinha um apelido para denominar parentes ou amigos muito próximos que salvariam a “pátria” através de seus conhecimentos geniosos no ramo de RH, indicando o nome de seus “protegidos” ao tão sonhado emprego público, onde não se bate ponto, onde dia de sexta só trabalha até meio dia, e segunda só entra depois do meio dia, o chefe só chega na terça e não é necessário mostrar resultados de produtividade, etc etc. Até aqueles que acabavam de sair da Faculdade procuravam desesperadamente sua segurança profissional “medíocre” e financeira.

Na época em que prestei vestibular, um amigo meu me aconselhou que aquela era a melhor fase pra se fazer um concurso público, estávamos com os assuntos de atualidades na ponta da língua, e eu, no meio daquela pressão ridícula que é a fase de vestibular, onde você com dezessete anos, tem que definir seu futuro, acabei me escrevendo. Pra minha surpresa, um ano e meio depois de ter feito a prova, chegou lá em casa uma correspondência, eu tinha passado no concurso e estava sendo chamado ao trabalho na área financeira de uma repartição pública. Pensei em não comparecer, mas acabei indo, pois a grana tava curta e minha faculdade começaria em duas semanas. Foram os três anos no emprego mais surreal que já tive na vida, talvez poucos tenham a noção do que é ser um funcionário público “CONCURSADO” no meio da maioria de colegas com cargos “CONFIANÇA” (assim que eles se auto denominam, mas na verdade assim se denomina funcionários que entraram pela janela, os com QI, pistolão etc, lembra?), que tem a mesma função que a sua, trabalham menos e ganham até cinco vezes mais. Acabei sendo locado para um departamento que praticamente só tinham “CONFIANTES” - modo como eu chamava eles - O pessoal no começo me achava meio estranho, devia ser por que quando cheguei não comentei quem tinha me indicado, até por que não existia indicação nenhuma, isso devia causar um certo constrangimento, pois as coisas eram todas medidas através da importância do seu “Pistolão”.

- aqui meu filho, se seu peixe é graúdo, tu pode até mandar no seu chefe, os cargos são tudo fachada.

Dizia o Julinho, torcedor fanático do “BAÊA” e segurança na Portaria, que almoçava junto comigo no PF de Sônia. Com o tempo, e com conversas com Julinho, aprendi que o ponto frágil daquelas pessoas era um medo ridículo das indicações, nas conversas sempre se escutava:

- Aquela tem peixe grande minha filha, ó, só anda de nariz empinado.
- Ah aquele ali é filho do homem
Comecei de certa forma achar tudo aquilo engraçado, ninguém sabia como eu tinha chegado naquele cargo, com minha idade só poderia ser sobrinho de algum “Tubarão”, nego me tratava na “pelica”, tentaram encontrar algum parentesco com o meu sobrenome e os Magalhães, os Souto, os Alencar, etc, e nada, mas como eu não falava nada sobre tal assunto o perigo poderia existir. O medo dessas pessoas em perder seus empregos de fachada é impressionante, época de eleição parecia que tinham convocado férias coletivas na empresa toda, não se encontra ninguém, era nesses momentos que mais me divertia, quando ligavam procurando alguém:
- Setor financeiro, Bom Dia.
- Merinha ta aí?
- ta não, Merinha ta em campanha?
- TA ONDE?
- em campanha pro candidato dela não perder as eleições, senão ela perde o emprego.
- Oxi,
tum tum tum
Eu me divertia, até o dia que a ligação foi da filha do diretor. Fui chamado pra uma reuniãozinha, ele me perguntou se existia algum outro departamento em que eu gostaria de ser transferido, e foi ai que testei até que ponto o medo daquela gente ia, falei:

- Não obrigado seu diretor, meu tio esta muito feliz comigo aqui nesse departamento.

Ele pigarreou e disse:

- Que bom meu filho, fico muito feliz com isso então, pode voltar pra sua sala, só tome cuidado com esses assuntos nos telefones.
- Ah, sem problemas, pode deixar.

Nos cumprimentamos, ele mandou lembranças pro Titio, e eu sorrindo voltei pra minha sala. Depois daquele dia parece que a diversão foi se transformando em tédio, já tinha comprovado que aquelas histórias comentadas sobre os cargos públicos eram verdadeiras, “e como eram”, sem dúvida em nenhum outro lugar de “trabalho” as pessoas jogavam tanto paciência em seus computadores, imprimem tantos trabalhos para os filhos nas impressoras públicas, chegam tanto atrasadas, saem tanto mais cedo, ficam tanto doentes por semanas e principalmente desperdiçavam seus neurônios e seus talentos, o importante era manter a mamata, qualquer esforço em prol de um desenvolvimento era castrado. Comecei a tomar nojo de tudo aquilo e decidi pedir minha demissão, mais um espanto para todos meus colegas e mais alguns comentários:

- esse ai tinha peixe grande mesmo, deve estar indo pra alguma secretária.

Mas, como diziam muitos colegas, pessoas, etc, tudo isso só mudaria quando o ACM e sua trupe saíssem do poder. Eu ouvia as pessoas dizerem:

- porra, é foda, na Bahia de ACM é mais importante você ter um pistolão do que ser PHD.

E realmente era foda, o pior é que a Cabeçorra Branca resistia, os cabides persistiam, as falcatruas persistiam, até que vieram as eleições, e pra surpresa de todos, pois as pesquisas informavam o contrario, em primeiro de janeiro de 2007, o carioca Jaques Wagner, derrotando a trupe de ACM, assume o governo da Bahia. Realmente foi lindo, enfim 16 anos “roubando mas fazendo”, chegaram ao fim, porra teve colegas meus que choraram, gritaram:

- ACM se fudeu
- Aê putada da Propeg, todo mundo na rua! Hahahaha
teve um que dizia:
- acabaram-se as tetas da Bahia, decapitaram as tetas.
Eu pensei:
- porra agora a Bahia vai.

Mas foi um “Agora vai” sem saber muito bem pra onde, sempre achei que a solução e os problemas não estão nos políticos, político é, nada mais nada menos, do que um reflexo do povo, do mesmo jeito que tu vê falcatruas, roubos, licitações, CPIs no governo, você vê também, carteirinha de estudante falsa, desrespeito às filas, gato de luz, etc na rua, pra mim é tudo igual, governo e povo. Coloca o presidente da Suíça aqui no Brasil pra ver se melhora alguma coisa? Minha dúvida quanto ao rumo da Bahia também vinha pelo pacato primeiro mandato de LULA, depois, alguns acontecimentos me fizeram constatar que realmente a Bahia não vai é pra lugar nenhum, vai ficar no mesmo lugar quietinha, na sombra tomando uma água de côco. Um deles foi o não fechamento de um dos maiores “cabideiros” e outras "cositas" a mais da Bahia, a EBAL, entre outros equívocos comecei a perceber algo inacreditável, aquelas mesmas pessoas, intelectuais, partidários de esquerda, universitários, que fizeram aqueles comentários estrambólicos sobre tetas decaptadas, etc, à alguns meses, todos agora estavam trabalhando no governo através dos mesmos cargos de “CONFIANÇA”, sem concurso, ontem consegui conversar, via MSN, com um deles, vejam só, formado em Geologia e conseguiu um cargo de confiança na secretária de cultura.

alexandre... http://alefontanelli.blogspot.com/ diz: mas rapaz, e esse negócio desses cargos, o PT ta demitindo todo mundo e contratando sem concurso, ta me cheirando a continuísmo hein

JOÃOZINHOdiz: é xandão mais agora é diferente, todo mundo é de esquerda, engajado

alexandre... http://alefontanelli.blogspot.com/ diz: porra Joãozinho se fossem engajados, tinham que fazer conforme regulamento, cadê os concursos, um monte de gente despreparada sendo contratada

JOÃOZINHOdiz: porra, se não me conhece? Acha que vou fazer que nem eles. Se é carlista é?

alexandre... http://alefontanelli.blogspot.com/ diz: que Carlos, Carlista, meu nome é Alexandre...... mas porra João se acha que ta certo tu é geólogo

JOÃOZINHOdiz: melhor eu do que um carlista não é não? Se liga xandão... acorda meu filho acabaram as tetas

O bom do MSN é que tu pode fingir que caiu a conexão e não responder mais nada. As tetas continuam lá intactas o que mudou foi a raça dos bezerros.

Monday, April 30, 2007

Mestres Iniciadores

Hoje quando falo que um dia fui surfista, a maioria de meus amigos da risada, faz piadinhas, etc, mas, lá pelos idos de oitenta e poucos eu morava em Florianópolis local onde não é necessário se matar de remar pra pegar uma onda e onde crianças de seis sete anos colocam tubo brincando, de 10 amigos que eu tinha 10 eram surfista, logo, eu era surfista também, tinha duas Cristal Graffiti, 5 11’ e 5 10’, uma Tropical Brasil 6.0 vermelha e uma Manga Rosa (marca de prancha de Balneário Camburiu).
Depois de assistir o HANG LOOSE PRO CONTEST na Praia de Joaquina, vencido pelo australiano DAVE MACAULAY, aprender a surfar era uma necessidade, comprei uma prancha Manga Rosa e depois de alguns meses praticando decidi com meu amigo argentino, o Alberto, 13 anos, que naquela tarde chuvosa do mês de março a gente ia deixar de ficar babando as revistas de surf e iríamos virar surfistas de verdade:
- é só a gente pegar uma onda na Joaca hoje...
Fácil né? Entrar na Joaquina de ressaca, pra dois magricela de doze anos é suicídio. Vestimos nossas roupas de borracha e fomos até a praia, quando a perna treme tem pessoas que ficam estáticas e outras que saem correndo, eu e Alberto saímos correndo, só que pro lado oposto ao que o bom senso indicava, se é que se pode ter bom senso com doze anos sonhando em ser Tom Curren, corremos para as rochas na esquerda da Joaquina onde você entra no mar direto no canal. No limite da rocha percebi que havia poucos surfistas na água, tentei comentar isso com Alberto, mas minha voz não saiu direito e ele corria feito um desesperado na minha frente, tive a sensação que Alberto tava hipnotizado pelo medo. Foi assim que pulamos na água, eu remava pelo canal sem saber direito pra onde ir naquele mar cinza, céu cinza, chuva cinza, até o momento em que a Joaquina parou por alguns segundos junto com a nossa respiração, do canal, eu e Alberto estáticos vimos David Husadel (campeão brasileiro de surf no OP Pro) dropar aquele gigante cinza com sua prancha vermelha, inacreditável, gritamos (uhuuu) (yeh....!!!!), ouvindo o estalar da onda quebrando, quando a onda acabou ele entrou no canal e veio em nossa direção remando.
- ai David, que onda meu!
Ele chegou mais perto, olhou pra nossa cara e deixou nosso recado de bom senso:
- vocês são malucos! Querem morrer! se não saírem agora do mar, vou quebrar esse projeto de prancha de vocês, vai logo! Vamo!
A bronca fez a gente voltar à realidade, saímos do mar pelo mesmo canal que entramos. Na areia dando risada comemoramos o fato de estarmos molhados com a água do mar daquele dia, de ter dividido a Joaquina com David Husadel, mesmo que por alguns segundos, e pelo conselho do mestre, Alberto quebrou a prancha dele ali na areia mesmo, eu não tinha forças pra nada, quebrei no caminho de casa, e encomendamos pranchas de verdade, a minha uma Tropical Brasil vermelha em homenagem ao meu mestre David Husadel, afinal agora éramos surfistas de verdade. Quando vim morar em Salvador e quase desmaiei de tanto remar pra pegar uma onda na Praia do Pescador, destruída hoje, pela construção do Bordel ao céu aberto, Aeroclube, me aposentei no surfe.
Depois, pratiquei outros esportes, não vou citá-los aqui por que o povo sempre duvida, mas tudo bem, o que importa é que lá pelos idos de oitenta e poucos eu tava na avenida sete, Salavdor, com alguns amigos curtindo meu primeiro carnaval baiano, de mortalhan na pipoca e de mamãe sacode, por que naquela época não existia abadá, camarote (apertando todo mundo), muito menos circuito Barra/Ondina, e a música era boa, quando alguém falou:
- Lá vem os Acordes Verdes!
Era o trio onde Luis Caldas comandava a banda Acorde Verdes, com Carlinhos Brown na percussão e outras feras da música baiana. O Acordes verdes passou, mas aquela guitarra vermelha de Luis Caldas me afetou da mesma forma que a prancha vermelha de David Husadel, fui pra casa e no outro dia comprei minha primeira guitarra, uma Giannini Vermelha. Algum tempo depois tava no horário de intervalo do Colégio Mendel em Salvador, quando um sujeito meio estranho chegou de meu lado:
- vo vo você que é o xandão
- sou eu sim
- e e e eu sou o Cury
porra... O cara era meio gago e tinha uma mexa branca na cabeça, depois fiquei sabendo que era de nascença.
- e ai Cury beleza?
- beleza, você toca guitarra né?
- é
- eu toco bateria
- massa
- eu to to to fazendo uma banda com uns amigos, você não quer tocar com a gente?
- pode ser, como é?
- vai ter ensaio amanhã, na casa do tecladista, lá na Pituba
Porra... amanha era o começo de feriado de Semana Santa, já tinha marcado uma viagem pra Barra do Itariri.
- e e e ai vai? Hein vai? Vai?
- vô sim, me da teu telefone.
Não viajei, fui pro ensaio, e lá descobri que a banda era de Reggae, Cury amava os Beatles, e eu, nascido em Curitiba amava o Plebe Rude, e agora, o Luis Caldas também, não deu certo, Cury foi demitido primeiro eu fui logo depois.
Esses foram alguns Mestres Iniciadores, esse blog é dedicado a um deles, essa figura inoxidável chamada Ricardo Cury, ser humano demasiado humano, me iniciou no mundo Banda, continua amando os Beatles, a Mafalda, o Teatro, a Música, as Artes, já me deu a maior prova de amizade, me emprestando alguns Dvds raros dos Beatles e dos Mutantes, e esta a alguns passos de realizar o sonho de se tornar ESCRITOR. Aguardo ansioso seu livro autografado.
Aqui vai a ultimo texto postado do blog de Cury, queria que ele escrevesse um texto especial pra mim, mas a preguiça também lhe é peculiar e ele se negou, disse através do MSN:
- Cury diz:
bota esse ultimo que escrevi
- Alexandre diz:
porra Cury queria um texto inédito
- Cury diz:
porra xamico, ta foda, to sem tempo com esse lance do livro, bota esse mesmo que eu cito você nele
- Alexandre diz:
valeu então, deixe estar sacana...
- Cury diz:
heheheheh
- Alexandre diz:
hahaha
Ta ai o texto de Cury... e o link pro blog: http://ricardocury.blogspot.com/
“Aqui na Terra tão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock and roll.” – Chico Buarque.
Quando eu era pequeno, eu achava que Chico cantava que “aqui na Terra tão jogando futebol, tem muito samba e muito SHOW de rock and roll”. Mas logo que vi que eu tava errado e que Chico tava certo. Até tão jogando futebol, tem também muito samba e muito choro, mas rock and rool que é bom tá cada vez mais difícil, meu caro amigo Chico. A coisa aqui tá preta.Quem mora na Bahia, além de morar num estado um tanto atrasado em diversos aspectos, sofre com as notícias sobre os artistas que vem ao Brasil, mas que nem passam perto daqui. E os outdoors dizem que é o estado que mais cresce.Além de não ter shows internacionais aqui, ainda temos que torcer, pra que quando tiver, pro tal artista não passar mal ao comer uma iguaria. Nick Cave cancelou seu show na última hora após um abará. Bjork, que veio num carnaval e não ia se apresentar, mas que talvez rolasse algo, passou mal com um vatapá e cancelou qualquer chance de uma apresentação.Stevie Wonder teve aqui em 2006 pra a 2ª Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora e nem “Hi” no microfone ele disse.Meu Deus, Stevie Wonder veio e não soltou uma nota. Com o perdão do trocadilho Stevie, mas isso só se vê na Bahia.
Esses dias recebi um mail de um amigo dizendo que ele poderia morrer em paz se fosse assistir aos shows internacionais que acontecerão fora da Bahia no ano de 2007. Um outro amigo respondeu que ele já viu de tudo... Pixies, Stooges, Flaming Lips, Nine inch nails, Sonic youth (2x) e Teenage fanclub… e que isso já tava bom pra uma vida.Como nunca vou aos shows internacionais que (só) acontecem fora da Bahia, nunca vi muita coisa. Alias, nunca vi nada. Só Placebo, que até hoje as pessoas perguntam se ocorreu mesmo aquilo em Salvador, e Information Society, que tocou com Asa de Águia no Baiano de Tênis em 1991. Prefiro gastar de dois em dois anos com viagens mais duradouras e até pra fora do país. Um dia, quem sabe, pelo acaso, posso estar em alguma cidade onde terá algum show de meu interesse.Tava dando uma repassada no meu cerebelo pra lembrar do que já vi em Salvador e, entre outras, selecionei Wander Wildner com Tom Capone no baixo, Cigarettes com Spencer no baixo, brincando de deus na formação original, Dead Billies (∞ vezes), Engenheiros do Havaii com Gessinger, Licks e Maltz, Titãs com Arnaldo Antunes, Legião Urbana, Cascadura lançando o primeiro disco com três guitarras, Úteros em Fúria também na formação original, Paralamas com Herbert em pé, o que era uma coisa absurda, extraordinária... Vi também a banda carioca Pelvs tocando no Calypso...Em Lisboa ganhei na mega-sena. Comemorei como um louco, pois vi de longe um anuncio do R.E.M. Eles em tamanho natural. Olhei procurando a data do show, pois só ficaria em Lisboa por quatro dias, quando finalmente vi em letras garrafais “07/01/05”. Não ganhei na mega-sena por três dezenas erradas. Eu estava em 14/10/04. Me contentei com uma foto com eles, já que estavam em tamanho natural.Em Santiago no Chile, em 2006, foi com Placebo. Apesar de já ter visto, não perderia a oportunidade de ver de novo. Mas o show era pra dali a duas semanas e eu já estaria em Salvador. Tirei outra foto com o cartaz. Pra mim, um pobre baiano, ver cartaz desses shows é raridade.Na Bahia, o único cartaz que vi foi de um show do Ramones. Que não teve. Era boato.PUTAQUEPARIU.Só na Bahia pra ter um boato de um show do Ramones. E com cartaz. Pena que não fotografei. O único show que consegui ver fora do país foi em Madri. Saí de Salvador pra ver Moreno Veloso em Madri. Mas valeu a pena. Era com banda completa, Kassin, Domenico e mais três, num teatro massa e barato. Bem mais barato que seu pai na Concha Acústica, semanas atrás. E mais ainda que Chico Buarque no TCA, um mês atrás.Apesar de ter visto Chico nas ruas do Rio de Janeiro, queria ver ele num palco. Faziam 13 anos que Chico não se apresentava em Salvador. No Teatro Castro Alves seria perfeito.
– Compre no SAC do Iguatemi – disse Cris.
Cheguei meio-dia e peguei a senha, pra esperar o atendimento, de número 86. Estavam chamando a senha 38.
– Mas ainda tem ingresso?–
Tem sim senhor – respondeu o cara que organizava a fila.
Esperei por exatamente duas horas e meia.
– Mas conseguiu comprar? – perguntou Cris ao telefone.
– Consegui, mas acho que você não vai gostar muito...
– O que foi?
– Só tinha sobrado a fila zê.– FILA ZÊ? – gritou ela.
– Na verdade... zê dois
Quase que Cris desiste e manda eu vender. Mas ela concordou que era Chico e que talvez não tivéssemos outra oportunidade. A sociedade baiana é engraçada. Senhoras de vestido longo preto e cabelos armados só pra ver Chico. É como se arrumar pra viajar de avião. O show foi muito bom, Chico veio com A Banda e a distancia não foi problema. A única coisa ruim do show foi o cheiro de maquiagem que carregava o ar do teatro. Mulheres de Atenas, hein Chicão?No show de Chico tem de tudo. Gente de todas as idades, tipos, tamanhos, formas... Madames, engravatados, ripongas, o governador e a primeira dama, gente com camisa do Los Hermanos... Até minha terapeuta eu encontrei no show de Chico. Nunca a vi em lugar nenhum. Nunca, só no consultório, mas a encontrei na fila da água antes do show começar. Fiquei naquela sem saber se ia ou não falar com ela, mas achei melhor não.
– Minha terapeuta tá ali – disse eu.
Cris queria ver quem era, insistiu, mas não mostrei.
Oxe, minha mulher conhecendo minha terapeuta?
Nem a pau.
As duas sabem tudo de mim.
Imaginei paranoicamente as conversas que poderiam acontecer e achei melhor não mostrar.
– E aquele problema que ele tem de blá, blá, blá... – diria uma.
– Ah, mas pior é aquele outro problema que num sei o quê – diria outra.
Nada de apresentar uma a outra. Cris ficou tentando adivinhar pela aparência, mas me mantive frio e não dei pistas. Foi a primeira vez também que vi Dra. Maria de maquiagem. A dela tava leve, mas era uma maquiagem."Mirem-se no exemplo daquelas mulheres...", né Buarque?
Semanas depois teve Caê na Concha Acústica. Eu já tinha visto Caetano, mas fiquei pirado, pois era na tour de Circuladô, em 1992. Fiquei pirado por causa dos outdoors. Foi quase igual a história com o Ramones. Era Caê e Daniela Mercury (início de carreira) e tava no outdoor “Caetano Veloso e Daniela Mercury”. Esse outdoor ficou assim por três semanas e faltando dois dias pro show colocaram embaixo da palavra Caetano Veloso, em letras minúsculas, “Voz e Violão”. Eu tinha o CD Circuladô ao Vivo e queria ver a banda toda, não ele voz e violão. Mas já tinha comprado e fui. Não vi Daniela. Saí antes. Mas dessa vez na Concha era com banda. E de rock.Na Concha não tem lugar marcado e ficamos num lugar que, a priori, parecia ruim, pois era em cima da mesa de som. Porém, por parecer ruim, não tinha ninguém, um vazio no meio da platéia e por isso se transformou no melhor lugar do show.O show durou cerca de 1:40 e durante a primeira hora o que mais se ouvia era a palavra “senta”. Algumas pessoas queriam dançar e outras queriam ver o show sentados. Como estava no meio, pude presenciar várias confusões ao redor. Os “sentados” gritavam “senta, senta, senta” e por causa disso, na minha frente, quase que um cara senta a mão no outro. “Vão dizer que a violência é culpa do rock”, pensei.Uma hora rolou uns aplausos, logo no início de uma música, e Caê achou que era pra ele e sorriu em direção ao grupo que aplaudia. Mas eles estavam aplaudindo o cara da frente que finalmente sentou.Do meu lado, um casal que era visivelmente “público TCA”. Faixa dos 45, ela de preto, ele de camisa de botão, ela maquiada, ele de barba bem feita... Ela em pé, ele sentado... Imagino que foram pro show de Caetano no modo “é Caetano? Então vamos”.Ela batia palmas cada vez mais desmotivadas enquanto seu marido tapava os dois ouvidos por causa da barulheira que o guitarrista de Caê, Pedro Sá, fazia no fim de uma música com sua guitarra. Uma microfonia dissonante à Sonic Youth.
– Caetano tá tão estranho – comentou ela no fim da musica.
Aquilo que falei no início do texto sobre a Bahia não receber astros internacionais vale pra qualquer tipo de “coisa”, menos pro reggae. Uma vez teve um festival de reggae que era tributo ao mundialmente famoso reggaeman Peter Tosh. Nesse evento teria o show do filho dele, Andrew Tosh. Xandão, um amigo meu, tava pirado com as pessoas dizendo
“ah, vai ter Andrew Tosh e eu vou porque Andrew Tosh é massa, é filho de Peter Tosh, é o máximo e blá, blá, blá...”
– Porra de Andrew Tosh – dizia Xandão
– ninguém nunca ouviu falar nele, ninguém sabe a história dele e agora vai a baianada babar só porque é filho do cara? Se é assim, todo mundo devia ir babar no show de Preta Gil – finalizava ele.
Um dia depois desse festival, quem quisesse maconha era só ir pra Avenida Paralela e procurar pelo acostamento. Na hora do show teve blitz policial. Todo mundo dispensou pela janela do carro.Esse negócio de filho é foda. Só de Bob Marley já veio uns 10 pra Salvador. E Bob Pai nunca veio tocar quando vivo. Veio jogar bola, inclusive com Chico, onde bateu a clássica foto de time de futebol com Toquinho e Paulo Cezar Caju, campeão mundial em 70.Uma amiga minha que tá em Madri me disse que viu o show de Sean Lennon por lá e que foi emocionante ver o filho de Lennon, que ele parece muito com o pai e tal...Sean realmente seria interessante.– Vi um Lennon – disse ela tirando vantagem de mim.– Mas eu vi Chico – respondi triunfalmente, por saber que ela é fanática pelo carioca.Pro show de Chico eu fui com um amigo que é advogado, Gustavo. Na entrada, ele encontrou com um cliente dele que era um dos organizadores do evento.– No domingo, depois do último show, vai rolar um baba com o Chico, quer ir? – perguntou o tal cliente.Ele disse que sim e me chamou. Eu não poderia ir. Tinha uma viagem a trabalho marcada. Como o trabalho era no Vale do Capão, não foi tão dolorido. Gustavo foi e no caminho passou pela porta de um amigo em comum da gente, Faustão, que estava naquele momento entrando no edifício.
– Tô indo pro baba com Chico.– Chico?
– Buarque.
Foram juntos. Os dois torcem pro Bahia, mas jogaram com o uniforme do Vitória. Chico jogou com o uniforme do Bahia. O Bahia e o Vitória deram uniformes completos. Bateram a clássica foto de time de futebol. Chico bateu com os dois times. Estavam presentes os ex-jogadores Bobô, Sandro, João Marcelo (todos campeões brasileiros pelo Bahia em 88), além de jornalistas, convidados e a primeira dama do estado, que estava torcendo por Chico com uma empolgação balzaquiana.Mulheres de Atenas, né Carioca?O jogo foi 4 x 4. Quase igual ao 6 x 5 real do último Ba x Vi. Faustão fez um gol, marcou Chico, que segundo eles me disseram, parecia ser admirador da elegância sutil de Bobô e ainda trocou de camisa com ele no fim do jogo.Faustão não viu o show de Chico, mas diz que se contentou com o fato de ter jogado futebol com o próprio, que tava de bom tamanho...
– Foi show de bola – disse ele.

Tuesday, April 24, 2007

Augusta! capitulo 2

“... São Paulo terra de arranha céu, a cidade corta a carne é a torre de Babel, família brasileira dois contra o mundo, mãe solteira de um promissor vagabundo...”.
Racionais Mcs, tocava no mp3 enquanto eu subia a Augusta em direção ao banco, tinha que resolver alguns probleminhas financeiros e já estava atrasado, o banco fechava as quatro, após aquela primeira experiência na Augusta, contada no capitulo 1, eu não ia pra lugar algum sem fazer dela o caminho de passagem, era o poder que a Augusta de exercia sobre as pessoas, durante todos os dias em que estive em São Paulo tinha uma obrigação diária de caminhar na Augusta, lembrar suas velhas curvas e admirar novos encantos encontrados. Um desses lugares, que descobri meio sem querer, pois como contei no texto anterior, citando o estúdio de Duda – o qual eu só conseguia achar a noite - na Augusta tem vários lugares que você só vê em determinadas circustancias em outros momentos parece que desaparecem, já tinha passado inúmeras vezes por aquela loja e nunca a tinha reparado, desta vez parei por que recebi um panfleto de um rapazinho simpático cheio de sorriso e muito bem arrumado me convidando para entrar, pensei que era mais um daqueles panfletos dos bordéis, mas não, era uma pequena comemoração na alfaiataria e loja de chapéus, esqueci o nome agora, naquele dia fazia, não me lembro também quantos anos, mais eram muitos, que o bisavô do rapaz dos panfletos tinha aberto aquele comercio, como meu amigo jornalista, Mateus Rocha, gosta de falar, “lá pelos idos de 20”, quando os senhores e as senhoras de posse de São Paulo desfilavam pela Augusta com suas damas de companhia, muitos tinham endereço certo quando se tratava de melhorar as vestimentas, era exatamente aquele lugar que acabei de colocar meu tênis e adentrei, guardei o panfleto que estava lendo no bolso da minha calça jeans, por que agora a história estava ali em minha frente, alguns senhores muito bem trajados com seus paletós, cachecóis, coletes, suspensórios, bengalas, sapatos bicolor e lógico chapéus, os mais variados modelos possíveis, conversavam harmoniosamente sentados ao redor de uma mesa. Com a minha presença, alguns me olharam e fizeram um movimento segurando a aba do chapéu, não me lembro como respondi, mas a comunicação de, “olá boa tarde”, sem palavras, foi entendida, não tive coragem de juntar-me a eles e participar daquele bate papo, tive receio de atrapalhar algo que parecia um ritual, sentindo um aroma de fumo de cachimbo que incensava toda a loja, fui caminhando e conhecendo aquele lugar, café e pão de queijo eram oferecidos, muitas peças de calça, paletós e camisas estavam dispostos nas bancadas, tinham uma textura diferente, aquelas roupas pertenciam a uma época em que os clientes eram respeitados, eram roupas que duravam anos, se bem cuidadas, poderiam durar séculos, o rapazinho dos panfletos perguntou alguma coisa, lembrei que estava ainda com os fones do mp3 no ouvido e tirei:
- opa, beleza!
- olá, tudo bem, o senhor esta precisando de alguma ajuda?
Senhor? gaguejei, e num bom baianês falei:
- rapaz, to só dando uma olhada, gostei muito da loja, passo por aqui direto e nunca tinha reparado nela.
- é normal, isso acontece com a maioria das pessoas por aqui, é a velocidade improdutiva de nossos tempos.
“Velocidade improdutiva de nossos tempos”, não esperava ter ouvido aquela frase, ou melhor, nem sabia que ela existia, devo ter feito uma cara meio estranha, mas gostei daquele inicio de conversa.
- você trabalha aqui?
- mais ou menos, dou uma força de vez enquando ao meu avô, essa loja é a vida dele, é o único lugar da Augusta que resistiu a força do tempo, meu avô já teve inúmeras propostas pra vender esta loja, já quiseram transformá-la em farmácia, padaria, açougue, bordel, bingo, já ofereceram muito dinheiro, ele poderia ter vendido e comprado outro ponto bem melhor, mas o velho insiste que a loja não teria sentido em outro lugar que não fosse na Augusta, diz que aqui a loja tem alma, mesmo não dando mais lucro.
- qual deles é seu Avô
- aquele de chapéu marrom escuro
Era um dos senhores da roda de conversa, no momento estava falando algum assunto de total interesse de seus companheiros, todos lhe prestavam atenção. Falei ao rapaz olhando para os senhores:
- grande homem seu Avô, compreendo seus valores quanto à loja.
Muito gentilmente o rapaz foi fazendo um tour comigo, me mostrando os chapéus, cintos, algumas roupas que algum motivo especial se tornaram relíquias e nem estavam mais a venda, tudo feito à mão, peças únicas, peças feitas por medida e encomenda.
- acho que vou levar uma dessas calças aqui.
- boa escolha, essas calças fazem parte da coleção Blazer Saint Blanc.
- acho que essa cinza escura.
Ele pegou a calça que indiquei, leu alguma coisa dentro dela, pensei que tinha sido o preço, e falou:
- esta foi feita em 74.
- 74? Como você sabe.
- esta identificado aqui na etiqueta feita à mão.
Não acreditei, era setenta e quatro mesmo, escrito com um lapis numa etiqueta três vezes maior que as convencionais, aquela calça era mais velha que eu, tava ali desde setente e quatro me esperando chegar em São Paulo e na Augusta, naquele momento eu nem queria saber quanto custava a calça, nunca dei um real por roupa nenhuma, na infância arrancava as etiquetas e logotipos das roupas de marca que minha mãe comprava, e na adolescencia assim que a roupa chegava eu metia um silver-tape em algum lugar, mas aquela calça tinha vida e ano, 74, ia comprá-la de qualquer maneira, fui no provador, vesti, sai pra me ver no espelho e então o senhor de chapéu marrom se aproximou.
- bela escolha! Posso?
Não sei do que se tratava, mas respondi:
- pode!
Ele se abaixou, fez alguns ajustes na bainha, prendeu alguns alfinetes.
- pronto! Assim esta melhor, até que combinou com o tênis, (e deu um sorriso), Edgar, por favor, faça, a bainha desta calça, para o rapaz.
Enquanto eu esperava Edgar fazer a bainha, reencontrei o rapaz dos panfletos.
- Meu avô insiste em atender todos os clientes pessoalmente, fazer os ajustes das medidas, bom, aqui esta sua notinha.
Não esperava gastar aquele dinheiro, muito menos com uma roupa, mas já expliquei que aquela vestimenta obtida tinha um outro valor. Paguei, agradeci o rapaz, e me despedi dos senhores, desta vez através da fala:
- uma boa tarde para os senhores.
Todos fizeram o mesmo sinal da chegada com os chapéus, e o Avô do chapéu marrom disse:
- espero que o senhor goste de nossa calça, boa tarde.
Sai da loja e mais uma vez olhei maravilhado para a Augusta, eram cinco e meia, o tempo tinha voado, o banco já estava fechado e eu fui descendo a Augusta carregando minha calça 74 e pensando na “velocidade improdutiva dos nossos tempos”.