“Você já foi a Augusta nega? Não? Então vá, então vá”.
“Você já foi a Augusta fia? Não? iiii Tem que ir, tem que ir”.
Augusta – Capitulo 1
Hoje vim aqui falar de um dos lugares mais fascinantes que já conheci, pode até parecer estranho devido a pouca beleza que a maioria das pessoas vêem nesse local, mas, mesmo assim ele tem seu charme. Vou falar de uma rua, a Rua Augusta na cidade de São Paulo, e essa é uma rua de verdade, por que ela tem todas as características que só pertencem às ruas. Tem os moradores e comerciantes de anos, os malucos, bêbados, as pessoas aqui e ali estão sempre dizendo: “essa é a minha rua”, “lá na rua”, e a Augusta além de tudo isso tem sempre muito mais. Esse amor por uma reta de asfalto só as ruas conseguem ter, as avenidas, estradas, viadutos, etc, são lugares mais secos, mais áridos, pouco enturmados.
A Augusta realmente é a Rua Augusta, e olhe que de rua eu conheço, nasci em Curitiba (PR) onde morei em 3 ruas diferentes, depois me mudei pra Salvador (BA), morei numas 4 ruas, fui pra Balneário Camboriú (SC) mais duas, Florianópolis (SC) mais 1 rua, depois Recife (PE) mais 1, voltei pra Salvador (BA) outra rua, até chegar em São Paulo (SP) e morar numa travessa, a qual perdeu toda sua importância, por que era uma travessa entre a Augusta e a Consolação, no Famoso Flat Eldorado, vizinho da PUC e de uma delegacia da Polícia Militar. Era ai a casa da Scambo por 4 meses. O Ap 1801, no décimo oitavo andar do Flat Eldorado, que Graco conseguiu alugar com muita pesquisa e dedicação, era a melhor residência que podíamos sonhar em São Paulo.
Mas vamos a Augusta. Meu primeiro contato com “ela” foi logo no primeiro dia de São Paulo, depois de arrumar as bagagens fui ajudar Graco e Chapéu a comprar um colchão de cama para eles, na portaria do Flat, o porteiro falou a palavra mágica:
- Pode ir ai na Augusta que vocês acham colchão e mais o que vocês quiserem.
- sai aqui e vira a direita né.
- isso, à direita a Augusta e a esquerda a Consolação.
Não fui muito com a cara da Consolação desde o começo, esse nome me dava uma sensação de coitadinha de mim, e detesto esse tipinho, devia ser por que como ela não conseguiu ser a Augusta, só lhe sobrou o consolo de ficar nas proximidades. Fora que ela é uma Avenida onde as pessoas e os carros passam rápido, nem lhe dão bola. Mas tinha um recanto de Augusta em plena Consolação, era a Padaria Bio Pão, 24 horas aberta, salvou muitas vezes nossa fome, além do prazer que me dava em conversar e ouvir as histórias dos garçons que trabalhavam lá, todos nordestinos, doidos pra voltar pra terrinha. Depois faço um capitulo especial pra esse lugar maravilhoso que deixava um pouco mais alegre a Consolação.
Era umas cinco e meia da tarde, dobramos a direita e mais uns cinqüenta metros entramos “nela”, a primeira vez a gente nunca esquece, era uma rua estreita para os moldes de São Paulo, uma rua pra ir e outra pra voltar, as pessoas andavam meio na rua meio na calçada, e parece que por instinto as do lado direito subiam a Augusta e as do lado esquerdo desciam, não é muito íngreme, mas é uma ladeira, as lojas se misturavam entre antigas construções e arquiteturas moderníssimas, botecos, academias, bancos, hotéis, bordéis, cebos, boates, prédios, padarias, mercadinhos, restaurantes, um Bingo enorme e ao seu lado um salão de beleza todo de vidro onde dava pra ver uma Drag Queen cortando o cabelo de um cliente, fiquei meio atordoado e Chapéu (único individuo com sandália de dedo na Augusta) gritou:
- E ai baianinho vamo nessa?
E eu fui, dei meus primeiros passos “nela”, andamos uns 30 metros e demos de cara com uma loja só de colchões. Colchão de água, de madeira, fino, grosso, médio, o que quisesse tinha. O dono era um Coreano, e foi dura a disputa entre Graco e o Coreano por um preço mais justo, os coreanos com aquele olhar sonso de quem não esta entendo o que você fala e nem enxergando, conseguem enganar no comércio qualquer outra espécie de ser humano. Saímos carregando os colchões e eu ainda estava sentindo algo estranho, “ela” me lembrava um livro que Chapéu tinha me emprestado, “Pergunte ao Pó” de John Fante, aquela atmosfera meio caos, mas onde tudo funcionava e acontecia, onde a vida fervilhava. Se a história do livro tivesse ocorrido em São Paulo com certeza seria na Augusta, parei num mercadinho e perguntei se tinha pilha palito, o rapaz coçou a cabeça e me perguntou:
- se mora por aqui?
- moro sim, aqui do lado da delegacia.
- então! (então pro paulista é igual ao rapazzz pro baiano) agora não tem, mas vem daqui uns vinte minutos que ai já vai ter.
- beleza, daqui a pouco passo ai.
- firmeza
Depois do cheiro e da visão do Rio Tiete no caminho do aeroporto até o flat, esse foi o segundo aviso da chegada em São Paulo, o cara do mercadinho ia fazer qualquer coisa pra não perder uma venda. Graco e Chapéu já tinham ido na frente, carregando seus colchões fui olhando aquela rua doida, até me bater com um orelhão.
- Ããrrrrra meu, machuco?
Perguntou um rapazinho com uma jaqueta do Corinthians
- não beleza ta tranqüilo
- então! agora anda e olha pra frente meu.
- ta, valeu
- firmeza
- firme
Olhei pro orelhão e lembrei que tinha combinado com Julia que, assim que chegasse ligava pra ela. Liguei.
Cansado da viagem só acordei umas 2 da manhã pra ir ao banheiro, da janela do banheiro dava pra ver a Augusta, e dali "ela" se mostrou mais um pouco, a Augusta não dormia era que nem eu sofria de insônia crônica, e dali de cima suas luzes e seu som tinham o poder de hipnotizar qualquer um que lhe encarasse e fazê-lo sentir uma vontade enorme de ir até ela. Cheguei no quarto, que dividia com Graco e Chapéu, e encontrei um olho de Graco aberto, era a brecha que o sistema queria:
- Graco...? Graco...?
- que é?
- e ai, vamo na Augusta
- essa hora?
- é, vamo?
- vai mesmo?
- lógico
- então vamo nessa né.
- Chapeu? Chapéu? Acorda.
-que é?
- acorda vamo tomar uma.
Duas e quarenta da manha chegamos na Augusta, tive a sensação “dela” dar aquele sorriso tipo: “eu sabia que vocês viriam”. Pelo olhar de Graco e Chapéu senti que eu não era o único apaixonado, as duas pistas de ir e vir andavam num ritmo 20 Km/h, mas ninguém buzinava, as pessoas de dentro dos carros olhavam a Augusta e seus transeuntes sem pressa.
- e ai Graco pra cima ou pra baixo
- pra cima.
Começamos a subir a Augusta. Descobri que a sua beleza de noite era um milhão de vezes maior. Passamos pelo famoso OUTS, inferninho hard core, onde tava rolando o show do Forgoten Boys, uma multidão de preto se amontoava pela calçada, pensamos em entrar, mas, a idéia era conhecer a Augusta, logo depois tinha uma padaria onde algumas pessoas bebiam e comiam, (nas Padocas - padaria em sotaque paulista - de São Paulo você pode comprar tudo que precisar, almoçar, jantar e principalmente tomar cerveja), entramos e pedimos uma cerveja, brindamos, (Bien venidos a la Augusta!!!!), e ficamos olhando pro lado de fora. Do outro lado da rua a Drag Queen cabeleireira que eu tinha visto de dia conversava com outras “meninas”, quando reparou que nós olhávamos pra elas, soltou um beijinho e deu um tchau, pra variar, foi na mesma hora que eu tava dando um gole de cerveja, Chapéu começou a rir e eu fiquei meia hora tossindo, engasgado. Umas três e quinze saímos da Padoca e a Augusta estava fervendo, o trânsito continuava o mesmo, era possível encontrar todos os tipos de pessoas em cem metros de caminhada, e encontramos Tiago Trad, baterista do Cascadura, que tinha tocado com Graco na Inkoma, Tiago conhecia tudo da Augusta e nos levou por uma Portiiiinha, (que depois daquele dia eu só conseguia achar com muita atenção e a noite, de dia parece que ela sumia, sério, nunca consegui achar durante o dia), que dava no estúdio de Duda, Baterista de Pitt, ficamos um tempo lá conversando sobre nossa chegada, e Tiago contando os lugares que tínhamos que ir conhecer e que iría nos levar, tudo regado a cerveja. Saímos umas quatro e meia já meio tontos do álcool, com destino a um boteco que Tiago freqüentava na mesma Augusta, o frio, que eu, Graco e Chapéu não estávamos acostumados, fazia 12 graus, ajudava a andar e beber, subimos mais uma pouco pela Augusta e ela estava acordadíssima, passamos por vários bordéis, onde na porta de cada um, rapazes bem vestidos, ficavam chamando os clientes para os shows da noite.
- Só no Picalis! As melhores de São Paulo! Só as apertadinhas!
- e ai Chefia, só uma “entradinha” sem compromisso!
- Olha ae! Olha ae! Olha ae! Senão goza não paga! Vamo entrando...
Essa é a Augusta, tem pra todo mundo e pra todos os gostos, paramos no boteco e tome cerveja, aliás, essa é outra característica da Augusta, você na maioria das vezes esta tomando umas com “ela”. Saímos de lá umas seis da manha bêbados, batizados e fascinados.


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