Friday, August 24, 2007

"Floresta"

Belineide Souza Santana, soteropolitana, moradora do Cabula Vi, ou V, ou 5, conhecida desde sua infância como Bilu, caçula de sete irmãos; seu Woshington, pai de Bilu, toda manhã de sábado, dia de sua folga na empresa em que trabalhava como motorista de ônibus, lá pelas dez da manhã ia ao quarto de Bilu:
- Rumbora Bilu, acorda pra vida menina, simbora!
- ô painho... deixa eu dormir mais um pooooooooouco.
- Ectha que essa menina é fogosa... essa ai puxou a mãe...
Seu Woshinton fechava a porta do quarto e ia pra cozinha, lá encontrava Berenice, mãe de Bilu, preparando o cozido do sábado.
- Mulher, essa Bilu é você cuspida hein... oh menina fogosa...
- iiiii painho se puxou mesmo, vai gosta do vuco-vuvo... tu ta ferrado, vai ter é genro nessa casa.
- mulé... tu tome jeito... chegue aqui em painho, renha... renha... de um dengo em painho...
Esse negócio de dizer que Bilu era cópia da mãe, acabou “vingando”, Bilu cresceu e “formo” foi uma mulata das graúdas, com todos os apetrechos admiráveis da mãe quando jovem, e pra cópia ser das originais mesmo, registrada em cartório, causando a inquietação de seu Woshington, a bixinha gostava e muito do “assunto”, primeiro foram os primos, depois os coleginhas da escola, do bairro e por ai a menina ia do jeito que tinha de ser.
Cleidson Vinicius Silva, mais conhecido como Cleidinho, apelido carinhoso dado pela avó paterna no dia do nascimento, soteropolitano, também morador do Cabula V, o quarto dos nove irmãos; adorava ver da janela do seu quarto o pessoal da Limpurb pegar o lixo todo fim de tarde, ficava admirado com a facilidade que aqueles homens pegavam quatro, cinco, ás vezes até seis sacos de lixo de uma só vez, os mesmos sacos que todos os dias ele ajudava, com muito empenho, a mãe a carregar até a lixeira do lado de fora da casa, o auge do espetáculo acontecia caso os homens jogassem os sacos na boca escura do caminhão e o motorista ativasse a rotação da cápsula do tambor na frente da casa de Cleidinho, ai a alegria era completa, nem piscava os olhos vendo os sacos de lixo serem esmagados, triturados, sonhava em um dia ser o homem do bairro que conseguiria carregar a maior quantidade de sacos de lixo de uma só vez.
- mainha, quando eu crescer eu quero ser pegador de lixo.
- oxi Cleidinho, ta doido é mininu, que pegador de lixo o que, se vai ser é jogador de futebol ou cantor de pagode... viu! nem invente! Só me faltava essa, pegador de lixo, ai meu senhor do Bonfim! - Resmungava dona Célia, mãe de Cleidinho.
Apesar de não entender o por que da chateação de sua mãe com a escolha de tão importante função, como a de pegador de lixo, responsável por manter a cidade sempre limpa, Cleidinho bem que tentou ser jogador de futebol, todo sábado no campinho do bairro, comparecia com sua camiseta do “Baea minha porra” para o “baba”, mas na hora da escolha dos times ele era sempre um dos últimos a ser escolhido, isso quando não ficava na de fora, o que significava até para os mais desentendidos na arte do futebol, um sinal de que Cleidinho não levava jeito pra bola. Depois do baba tinha o pagode lá na praça, era sua segunda chance de orgulhar a mãe, conhecido pela vaidade e pelo cuidado com que penteava seu cabelo com a “pata-pata”, levava uma hora, penteando, passando gel, se olhando no espelho, depois vestia a camisa e o short da Fast Feet, combinando é lógico, ele tinha de todas as cores, verde limão, amarelo “cheguei”, azul “brilhante”, vermelho “sangue”; já arrumado, tomava outro banho agora com a lavanda, adorava sentir-se limpo e perfumado, devia ser algum trauma causado pelo amor juvenil com os sacos de lixo. No pagode, cantar e tocar também não eram o forte de Cleidinho, enquanto os amigos se exibiam nos vocais e nos instrumentos, Cleidinho ficava de olho na mulherada, bom de samba no pé e melhor ainda na lábia, naquela época já era conhecido como “Papai Zóião”, era Cleidinho botar o olho na “figura” que o bote era certo, foi exatamente num desses pagodes que ele avistou a fogosa Bilu se “quebrando toda” perto da barraquinha do capeta, Cleidinho não podia perder a oportunidade de xavecar aquela formosura, e no ritmo do Pagodão, aproximou-se de “Bilu”, sambando com o dedo indicador na boca:
- Eita mainha! assim se me mata! quebre aqui pra seu painho venha! Venha de bandinha mainha!
Bilu deu seu sorriso maroto pra Cleidinho e ao som de “Vai descendo na boquinha da garrafa”, “Vem mamãe... vem mamãe...”, iniciaram uma dança de esfregação, agachamentos, pulinhos, dedinhos, boquinhas, gritinhos, rebolados, acabando na dança do acasalamento, que aconteceu horas depois atrás do muro do colégio Estadual Presidente Costa e Silva. Desse encontro nasceu Cleidonilson Souza Silva, primeiro filho do casal Cleidinho e Bilu; com a chegada do rebento houve o casório e o “puxamento” da laje no segundo andar da casa dos pais de Bilu. Hoje Bilu é técnica em enfermagem e Cleidinho formou-se em Administração de Empresas, a uns quatro anos passou no concurso público da Coelba, pra desespero de dona Célia que almejava uma vida “decente” pro filho, sonhava em aparecer no arquivo confidencial do Faustão e deixar as vizinhas morrendo de inveja. Filhos, trabalho, casa, responsabilidades, muita coisa mudou na vida de Bilu e Cleidinho, só em um assunto eles continuam os mesmos da adolescência, Bilu continuava fogosa e Cleidinho continuava “Papai Zóião”, e melhor ainda, depois daquela noite no pagodão, Bilu só conseguia chegar ao clímax caso estivesse “rolando” um pagode dos bons. Cleidinho não perdeu tempo, comprou um microsistem de ultima geração em doze parcelas de R$14, 89, o bendito do aparelho não saia do quarto do casal nem nos dias de festa, era proibido qualquer ser humano chegar próximo daquela maquina do amor, Cleidonilson quase teve a moleira afundada num dia que escapou da Avó e quase danifica o “Aparelho” com seu chocalho, não fosse a voadora certeira de Cleidinho arremessando o filho até a cozinha, algo muito sério poderia ter ocorrido naquela família. Dia sim dia não, depois do trabalho, Cleidinho chegava em casa mostrando um CD novo pra Bilu.
- eita mainha ó praqui. Lançamento! É o “RIT” do momento, a dança do Tchu Tchu”“.
- o painho é hoje que eu me acabo.
E assim, a rotina se repetia de lançamento em lançamento, de dança nova em dança nova, de “rit” em “rit”, etc em etc, mas o negócio pegou fogo mesmo quando Cleidinho trouxe o lançamento do ultimo carnaval com a música: “PIRIRIPOPOM PIRIRIPOPOM”, Bilu foi à loucura. “PIRIRIPOPOM PIRIRIPOPOM” se tornou a marca do casal, Bilu passou a chamar Cleidinho de meu PIRIRI e Cleidinho chamava Bilu de meu POPOM; quando o almoço de Bilu tava gostoso, Cleidinho dizia que a comida estava PIRIRIPOPOM, se Cleidinho consertava a antena da TV, “eita que a imagem ficou PIRIRIPOPOM”, com tanto PIRIRIPOPOM pra cá e PIRIRIPOPOM pra lá, nasceram, Cleirovan, Cleidir, Berenidis, Cleber Ricardo e a caçula Berenice Alessandra.
S
empre que todos estão disponíveis ou quando o stresse chega no limite, existe um lugar, que os amigos mais esotéricos apelidaram de “Floresta”, para os “normais” é o Sitio de Lore, lugar onde recuperamos a racionalidade humana antes de retornar para a maluca civilização urbana. Nossa “Floresta” encontra-se na região de Itacimirim, 60 Km de Salvador. Esoterismos a parte, A “Floresta” é um Sitio, pertence ao Avô do “Nico”, Nico é o apelido que nossa amiga Lore recebeu num dia em que estávamos todos reunidos naquele que até este momento ainda chamava-se Sítio e alguém, não me lembro quem, instituiu que a partir daquele dia o sitio passaria a se chamar de “Floresta” e automaticamente seus freqüentadores teriam que ter cada qual uma representação animal; é claro que nesse momento grande parte das pessoas, estava com seu estado psicofisiologico um tanto alterado, o resultado foi que Lorena passou a ser o Nico, eu um Lagartixo, teve Garça, Bicho Preguiça,, Cachorro, Poodle, e outros uns tanto ofensivos como Rêmora, Anta, Sarigue, Hiena, tinha bicho de todas espécies possíveis, como sempre a maioria dos animais/apelidos foram escolhidos por Waltinho e sua memória ímpar, única pessoa que conheço capaz de cantar a musica do Jaspion inteira e num japonês fluente. Prezando o bom convívio de todos e nossa amizade, visto que alguns apelidos causaram muitas risadas e discussões e até um inicio de confusão, por sorte, somente o apelido de Lorena pegou, Lore passou a ser chamada, carinhosamente de “Nico”, ou Mico na língua de Pojuquinha. A “Floresta” é um lugar mágico, apesar da minha aversão á duendes, á fadas, e á irritante mania de “Vamos abraçar as arvores” de alguns freqüentadores da Floresta, tenho que admitir que o local transcende. Quando adentramos a porteira, dificilmente vamos pra vila ou saímos para qualquer outro destino, os dias são todos ali, o sitio completa, no cajueiro, com as galinhas, os sapos, a fogueira, a cachaça, com Tico - o cachorro vira-lata do local -. Numa dessas viagens descobri um segredo no Sitio, foi o grande motivador para eu considerar cada vez mais aquele local e não dar muita importância a minha total falta de desenvoltura com as coisas do campo, da roça, da natureza, a “Floresta” passou a ter uma importância sublime, pelo menos para mim, demorei um pouco pra revelar meu segredo aos outros “animais”, contei primeiro pro Nico, a qual insisti dizer que é loucura minha, que não há possibilidades disso ser verdade; bom, durante uma passagem pelo sanitário da suíte, descobri vários documentos sobre a ditadura guardados no armário, revistas, documentos, linkando á determinados sinais evidentes, como a existência de quadros de Fidel e de Cuba na sala de televisão, a cor vermelha do muro e do telhado do sitio, e á sensações inacreditáveis ocorridas durante conversas em frente a fogueira, conclui, que nossa bendita “Floresta” sem sombras de dúvida serviu como local de refugio para os militantes de 64, quem sabe Prestes, não aquele Prestes lamentável encenado no filme “Olga”, mas sim o verdadeiro Prestes, tenha se escondido ali naquele local que admiramos tanto e fumado um charuto junto com os companheiros em frente a mesma fogueira; acredito piamente nisso e acho que no fundo o Nico também; coisas de uma época vibrante, que “A Florestas” sempre exala nos seus cantinhos.
Nas raras vezes que saímos, ou é para comprar mantimentos ou para dar uma relaxada a mais no píer que fica próximo da reserva de Sapiranga, em Pojuca. Nesse dia, que agora vou relatar, tínhamos acabado de comer uma moqueca preparada por Graco pelo conhecido sistema “demora que a fome aumenta e a comida fica deliciosa”, então, de barriga cheia, Eu, Matéria, Patrícia, Waltinho, Joana, Julia, Lore, Edu, Graco e Luana, resolvemos ir ao píer tirar uma “pestana”.
O dia estava lindo, o píer como sempre vazio, e entre um papo furado e outro o cochilo vinha fácil, o rio seguia seu caminho rotineiro, a brisa embalava um papo furado, uma coceirinha boa sempre era bem vinda, mas, não demorou muito e ouvimos alguns carros se aproximando, pois bem, lembram de Bilu e Cleidinho? Família em peso decidiu passar a tarde no píer também. Além de Bilu, Cleidinho, seus filhos Cleirovan, Cleidir, Berenidis, Cleber Ricardo e a caçula Berenice Alessandra, também estavam, Nedson e Gisley, primos de Cleidinho, com seus filhinhos Alan Delon e Gineide; Patric e Léa amigos do casal com seus filhos Marlon, Mariene, Miltinho e Marcinha também presentíssimos, sem esquecer Ebola e Tyrone dois poodles do casal Léa e Patric.
- Alan Delon! Miltinho! Cuidado com o rio! segurem Cleber Ricardo que ele não sabe nadar!
- Cleirovam vem amarrar a sunga mininu!
A primeira a se revoltar foi Patrícia:
- A meu deus não acredito, vamos embora...
- Calma Paty, vamos esperar um pouco...
disse Matéria enquanto Alan Delon de “bombinha” pulou no rio molhando Patrícia que tomava sol no píer.
- “Eu lhe afogo seu péstinha”
Nesse momento quem tava cochilando acordou. Depois de uns trinta minutos decidindo se permanecíamos ou voltávamos para o sítio, a zoada foi diminuindo, Alan Delon foi tomar banho de rio com Miltinho, Cleber Ricardo e Berenidis longe de Paty, tudo caminhava para a normalidade enquanto Patric e Nedson preparavam a churrasqueira, foi aí que Cleidinho decidiu pular da tirolesa, é, tem uma tirolesa no rio de Pojuca, sempre tinha reparado, mas nunca senti vontade de pular, até por que ficar no Píer deitado vendo a vida passar é mais emocionante do que aquela tirolesa que atravessa o rio até a outra margem. Lá vai Cleidinho fazer esporte radical, a gritaria foi geral, os meninos também queriam pular, Bilu disse que era muito perigoso, que ele podia cair lá de cima, aquele mundo de gente começou a subir a torre de onde se faz o primeiro salto.
- Eta porra a torre ta balançando! - Comentou Waltinho.
O pior é que tava mesmo, lá em cima o instrutor com uma cara meio irritada preparava Cleidinho para o salto e explicava que quando ele chegasse do outro lado do rio, um outro instrutor prepararia o segundo salto para a volta, a criançada tentava subir na torre enquanto Ebola e Tyrone latiam sem parar. Julia, Joana, Lorena e Luana começaram a fazer coro com Paty, ai já viu, mulher reunida o veneno é forte, quase derrubaram Cleidinho lá de cima só com o olhar. A gritaria continuava, começou um coro de:
- pula! pula! pula!,
Bilu conseguiu chegar até o topo da torre segurando Berenice Alessandra no colo, deu um beijinho no marido fez sinal da cruz, e nem viu Cleidinho ser arremessado pelo instrutor, Berenice Alessandra começou a chorar, a chupeta caiu e encontrou lá embaixo a bocarra de Ébola e Tyrone que destruíram o material plastificado. O salto de Cleidinho foi espetacular, nunca se viu tanta euforia numa pessoa só, ele atravessou o rio gritando, fez alguns movimentos desengonçados, tentando dar uma pirueta, a sunga escapou um pouco deixando a mostra, para quem quisesse ver, o cofrinho de Cleidinho, cena lamentável, finalmente Cleidinho aterrissou na outra margem com a ajuda de outro instrutor. Do lado de cá foi uma festa, enquanto o pessoal batia palma e as crianças berravam:
- Tio Cleidinho! Tio Cleidinho!
até a gente bateu palma, crente que a paz reinaria novamente.
- Porra Cleidinho boto pra fuder... - comentou Matéria
Cleidinho tirou o equipamento da tirolesa e gritou lá da outra margem:
- Pula Bilu, agora é a sua vez!
Ouve um coro de: “Puta que pariu, não acredito”.
Paty e Waltinho se jogaram no rio pra refrescar a mente, Chapéu e Julia começaram a rir e a família toda começou novamente o coro:
- Pula! Pula! Pula!
O instrutor com a mesma cara de quem não agüentava mais, disse a Bilu que Cleidinho tinha pago o salto dela também e que era a vez dela pular, Bilu gritava dizendo que não ia, que era muito alto, que não tinha coragem, mas todos insistiam, principalmente Cleidinho que se “esgoelava” do outro lado do rio:
- Pula meu amor! É muito bom! Eu to te esperando aqui!
E jogava água pra cima, dava cambalhota na areia, sempre gritando o irritante “pula!”.
Mais gritos, latidos, a criançada subindo novamente a torre, e nada de Bilu saltar:
- Ai Cleidinho eu to com medo!
- Pula meu amor... Pula! Pula! Pula!
Paty, irritada, soltou um “Pula logo porra”, o instrutor obedecendo a ordem de Paty colocou o equipamento em Bilu, mas Bilu tava empacada, gritava e batia com os pés, não saia do lugar, olhei pra meu lado e vi Berenice Alessandra sentada cheia de catarro no nariz tentando desviar das lambidas de Ébola, Cleidinho do outro lado do rio continuava o coro Pula! Pula! Pula!, tentava convencer Bilu a saltar, não tinha jeito, Bilu não saia do lugar.
Eu não agüentava mais ouvir tanto “Pula!” Ô palavrinha irritante, vinha “Pula” de todos os lados, o que não se fazia a mínima idéia era que outra palavra bem pior ainda estava por vir, Cleidinho tinha uma carta debaixo da manga que faria Bilu pular até da cachoeira da Fumaça. É chegada a hora.
Cleidinho abriu os braços.
Puxou o ar e soltou um grito mágico:
- PIRIRIPOMPOM PIRIRIPOMPOM
Silêncio geral. Todos estáticos olhavam pra Bilu, Ébola e Tyrone pararam de latir, até o rio parou. Os olhos de Bilu brilhavam.
Cleidinho de novo com a voz cheia de delay gritou:
- PIRIRIPOMPOM PIRIRIPONPOMMMMMMMMMM POMMMM POMMMM POMM
Enquanto os casais e as crianças dançavam freneticamente o ritmo do PIRIRIPOMPOM, Bilu olhou pro marido na outra margem, abriu os braços, tomou distância e em câmera lenta saltou, gritando:
- PIRIRIPOMPOM PIRIRIPOMPOMMMMMMMMMMMMMMMMMM

1 comentários:

Taís Ribeiro said...

kkkkkkkkkkk
Bom demaisssssssssss!
Me amarrei no desenrolar da historia, além dos nomes dos personagens...
Parabéns, jogou duro!
:)